O buraco é mais embaixo

Nada ou nem tudo é o que parece ser. Se você já leu Maquiavel com certeza possui noção exata do que isso quer dizer. Pra quem desconhece, eu me refiro a obra ‘O Príncipe’ de 1532, que discorre fundamentalmente sobre como conquistar e se manter no poder, de modo que qualquer fim justifique o meio. Maquiavel ficaria certamente embasbacado com as abordagens modernas que vivenciamos.

O nosso cenário político segue uma tendência já identificada em pontos distintos do globo. Uma onda conservadora que verifico sempre se pronunciar enfaticamente quando narrativas disruptivas tomam musculatura a ponto de ameaçar estruturas históricas de exploração. Foi a intensificação do processo de precarização social que estimulou massas subalternizadas a insurgirem e a reivindicarem direitos básicos gerando grandes revoluções. Se olharmos para história constataremos incontáveis exemplos, como o ocorrido a partir da Era Vargas. Após o fim do monopólio da política café-com-leite que rompe a oligarquia política entre São Paulo e Minas Gerais, foi possível suprimir todas as restrições ao voto feminino e instituído o Código Eleitoral do Brasil, além do Ministério do Trabalho, a CLT, dentre outros. Evidentemente que sem nenhum mocinho herói tá gente! Os direitos básicos foram concedidos pelo Estado Brasileiro através de um extenuante processo de luta popular. A gente precisa abandonar essa ideia maluca de ‘salvador da pátria’. Não tem gente. Em democracia ou é junto e misturado ou não é.

O Brasil recente vinha num processo considerável de reparação social com o governo do PT. Isso é indiscutível. Mas não podemos tirar do bolo as incontáveis contradições do partido que se identifica no campo da esquerda, mas enquanto esteve no poder soube explorar e tirar densos proveitos do neoliberalismo. A máquina do tal desenvolvimento alimentada vorazmente pelo capitalismo financiou projetos que impactaram o meio ambiente (vide usina de Belo Monte), ampliaram o perigoso processo de militarização das polícias (vide índice de violência policial e morte de policiais no RJ) e o encarceramento em massa, sem falar nos inúmeros casos de corrupção espalhados pelos quatro cantos do país, só pra citar alguns exemplos. E assim, cheio de controvérsias e a grandes custas, o governo do PT possibilita a ascensão de uma massa popular dando luz até a uma certa classe média que mexeu no caldeirão da grande burguesia conservadora. Governos populistas sempre preocupam os donos dos meios de produção, pois sabem que a gigantesca fatia do bolo econômico comida por eles em algum instante deverá ser um pouco mais repartida com quem geralmente fica com quase ou nada mesmo.

Nesse cenário eu gostaria de falar de dois conceitos que exercem na minha visão um papel de ‘contenção’ de avanço popular e que ajudam na compreensão da bagaça atual em que estamos atolados via despolitização: a ultrapolítica e a pós-política. A primeira vez que ouvi esse termo foi no excelentíssimo canal do Youtube da Sabrina Fernandes, o Teze Onze. Por política o dicionário descreve como: 1. arte ou ciência de governar; 2. arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados; ciência política.

O pensar político compreende o fundamento de integração e participação que cada indivíduo enquanto ser social precisa para compor um Estado/Nação. Significa que toda ação individual – que também inclui a omissão – projeta um efeito no coletivo em algum momento e em algum nível. Pois não existe verticalização possível em um viver coletivo. Nesse sentido podemos considerar que a política admite linhas de pensamento, formas de abordagem e ferramentas específicas de aplicação e atuação a depender da sua narrativa ideológica. O primeiro modelo de espectro político coloca as diversas vertentes ao longo de um eixo cujos extremos são de esquerda e direita. Apesar das infinitas ramificações desenvolvidas ao longo da história para os termos acima, podemos concordar que em essência cada um defende interesses bem distintos, certo? No canal da Sabrina é possível conhecer bastante sobre esse universo.

A despolitização sugere uma posição para além desses campos discursivos. Ela insiste em propiciar um novo terreno paralelo se distanciando da discussão natural que se estabelece no confronto dessas narrativas antagônicas. A política foi banalizada em nosso país. Nunca nos preocupamos com ela. A superficialidade das discussões sobre o tema nos fez chamar inclusive levianamente todo esquerdista de comunista e todo direitista de fascista ou nazista (qualquer pesquisa sobre os temas deixa evidente o despautério). A polarização ficou cada vez mais violenta. Por essa razão houve um número crescente de indivíduos numa crise de representação tremenda se sentindo atraídos por uma abordagem despolitizada. Ela sugere uma neutralidade possível. Ao se deparar com a ultrapolítica percebemos que ela cria um inimigo a ser combatido. É o ‘nós contra ele ou eles’. Nessa perspectiva a polaridade acirrada propiciaria um campo de batalha que vale a sobrevivência onde apenas um poderia sair vitorioso. Mera coincidência amores?! Não há qualquer regulação durante o processo e quanto mais antagônico e ameaçador, melhor. Até hoje a direita acusa uma ameaça comunista no Brasil recente que nunca sequer se delineou (estamos anos-luz de distância disso). Uma falsa polarização que dissemina o medo e a destruição do status quo gerando os resultados que vivenciamos. O mesmo ocorre quando os conservadores acusam professores de disseminar ideologias de gênero nas escolas. Vejam só! Como se, na verdade, o que vivemos atualmente sobre menino vestir azul e menina vestir rosa já não seja uma ideologia bem definida e entranhada pela tradicional família brasileira. Me poupe, se poupe, nos poupem.

A pós-política acaba complementando a abordagem anterior ao fermentar uma estrutura mais tecnicista ao discurso. Seriam gestores imparciais e esclarecidos responsáveis pela administração não ideológica na máquina pública. A pós-política também se anuncia como “nem de direita e nem de esquerda”. Um recente exemplo disso é o João Dória que, nitidamente de direita e neoliberal, se declarava gestor e não político. Ou até mesmo a atual deputada Tábata Amaral que se considera fomentadora das causas populares e a favor de minorias políticas, já demonstrou posturas genuinamente neoliberais. Por isso como bem complementa Rodrigo Barros (Colunas Tortas, 2018), a pós-política não é exclusiva da direita política, tendo movimentos da esquerda aderido a essa lógica ao renunciar as pautas classistas e se concentrar em demandas rasas que seriam possíveis de se resolver com “boa gestão”.

O grande problema nisso tudo é que não existe neutralidade possível, conforme disse. Se afastar do discurso político coerente repercute uma postura que influi no produto social deixando o campo livre para uma abordagem implícita, dissimulada e por essa razão, perigosa. Quando um político assume um discurso despolitizado está dissimulando suas intenções para ganhar eleitores que renegam a real política, seja por desconhecer ou por mera descrença e que não se sentem representados por ninguém da atual conjuntura.

Mas o que a gente precisa ter em mente a princípio são projetos políticos de poder e não personalidades políticas. Pensa comigo… o que ocorre por exemplo se o Presidente Bolsonaro for por algum motivo destituído de seu posto (desejo de uma galerona né?! ‘rs)? Assume o seu vice um tanto mais polido e resoluto, mas com projetos de poder bem alinhados com o seu antecessor, certo? O mesmo ocorre no caso de a chapa eleita ser deposta e o presidente da câmara precisar assumir. Teremos menos escândalos e absurdos comportamentais, mas o campo ideológico neoliberal estará de pé e perpetuando decisões favoráveis ao pleno funcionamento do capital com pouca reverberação pra classe mais desassistida do Estado, certo? Se debruçar sobre projetos políticos de poder é considerar basicamente em que ponto da pirâmide eu me encontro e o que eu quero pra mim e pra quem me rodeia. É se politizar e buscar sim identificação com o campo narrativo que me contempla. E ele não é neutro e nem pode ser apenas tecnicista. Se pergunte: qual campo alimenta o crescimento e acentua a desigualdade e qual reivindica o desenvolvimento via reparação histórica e equidade social?

Pensar a partir dessa perspectiva política permite a fecundação de novas aldeias sociais. Não somos educados para a política. Isso não interessa quem detém o poder. Por isso julgamos chato ou geralmente brigamos ao principiar qualquer discussão. Fazemos como aprendemos no futebol ao associar o ego a um time de afinidade de modo que essa escolha represente você intimamente e falar mal dessa escolha é falar necessariamente de você. Dói tanto que defendemos até o final. Nos ofendemos. A política não defende uma delegação, mas sim a nossa existência e por isso é fundamental investigá-la e buscar representações políticas que ancorem projetos reais de bem-estar comum. Afinal, política se discute sim e desde cedo, a partir da escola num processo sério de conferir localização social que difere de doutrinação hein?! (PeloAMOR!).

E precisamos nos bem comunicar!

Somos seres sociais e vivemos naturalmente em grupos. Investigar os pensamentos coletivos permite dar luz a questões ocultadas pela percepção imediata que normalmente fazemos de nossas experiências julgando-a automaticamente a ‘mais sensata’ na maioria das vezes e subconsiderando o existente no outro. Eu ouvi a comunicadora Débora Baldin (@baldin.debora) repercutindo em seu Instagram que o pensamento é a expressão ativa da nossa memória em cada fase de nossa vida. Ele é socialmente construído à medida que é socialmente alterado. O pensar político abrange toda essa contextura. Sobrevive da troca. Uma interação que pode ser pautada de formas que ampliam ou reduzem a capacidade de comunicação dos envolvidos. Nesse contexto o diálogo a partir de uma comunicação não violenta é fundamental. O diálogo se diferencia do debate que busca o convencimento e a persuasão com posições definidas. E também difere da discussão que persegue uma conclusão a partir da ruptura da posição antagônica, muitas vezes permeada pelo ego. O diálogo se dedica a uma via aberta de escuta desapaixonada e empática sem buscar concordâncias. A etimologia da palavra traduz a sua essência:

Día = atravessar algo por inteiro (“diâmetro”, por exemplo, é a linha que atravessa completamente um círculo); Logos = significado.

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Créditos: Cesar Matsumoto

Você atravessa de um canto a outro os significados do outro sem se perder em curvas pessoais. É um interesse genuíno; curioso. Vamos fomentar diálogos políticos no nosso microcosmo hoje?

Não quero dizer que o diálogo será sempre a melhor abordagem de comunicação pois o contexto varia cada necessidade. Há momentos em que o debate é mais indicado ou discussão, vice-versa e por aí vai… essa avaliação também faz parte de nossa investigação do todo. Isso aqui precisa de mim, de você, de geral fluindo. Tamo junto?

Imagem: Guadalupe Pardo/Reuters

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