Não temos tempo para instruir defuntos

Em mais um episódio lamentável onde Luísa Mell, importante ativista da causa animal, vincula o resgate de um cachorro que foi supostamente torturado e teve suas patas mutiladas a um ritual de sacrifício religioso só reforça o poço em que nos encontramos. Afinal, saímos a pouco de um debate em que a alta corte do país considerou constitucional os rituais de matriz africana.

É desastroso quando alguém com notoriedade vem a público fazer uma acusação do tipo. Todos já sabemos qual religião é demonizada por aqui. Basta dar uma olhada nos comentários da publicação feita no Instagram pela ativista pra se ter uma noção da profundidade do buraco. Recentemente a livraria flutuante Logos Hope que atracou em Salvador para uma temporada fez uma publicação na mesma rede em que pedia orações antes da previsão de chegada à capital pois a cidade ‘crê em demônios’. Só a nível de detalhe, a organização pertence a um grupo cristão. Me acode aqui pai…

Ao repetir a indignação com o que disse ter sido feito ‘em nome da religião’, Luísa demonstra irresponsabilidade e que nada aprendeu sobre a pauta de lá pra cá. Luísa desconhece os problemas estruturais da nossa sociedade, ou se conhece, pior, pois lança lenha em uma fogueira que queima corpos negros devido a sua fé. NÃO EXISTE tortura animal no candomblé. Os rituais são feitos em sua maioria com galinhas criadas no terreiro e as pessoas participantes se alimentam do animal, conforme um carnívoro qualquer. Zero novidade. Há casos em que inclusive veganos adeptos da religião podem optar em não participar do ato. Não dá pra usar o veganismo (luta política que abrange classe e por consequência raça, conforme post anterior) como trator passando por cima de uma religião secular comparando o modelo desgraçado de exploração animal do capitalismo ao que ocorre em locais sagrados. Principalmente quando usam uma em específico como token. Isso, de novo, é racismo.

O fato é que muito já foi escrito, esclarecido, discutido. Tem literatura aos montes, vídeo então nem se fala. O resto é preguiça endêmica ou mau-caratismo colonial mesmo. A internet tá aí pra conferir autonomia de conteúdo. O antirracista que de fato se debruça na causa precisa pesquisar, indagar, repreender, discutir o racismo e se posicionar com base em referenciais legítimos de fala, causa e efeito. É dever do branco privilegiado correr atrás desse B.O.

Mas o que me fez vir aqui a essa hora foi uma linha no Twitter da @bela_reis relatando sua exaustão ao ser meio que obrigada a falar a cada novo caso de racismo. E isso é um fato! Já até comentei sobre o risco de viver sob a pauta do racismo. A frase do título parafraseada de Zaus Kush alerta para uma reflexão necessária sobre a problemática que recai compulsoriamente sobre o negro que decide militar, ao ter que ficar explicando o mesmo e o já escancarado diversas vezes a todo instante em que alguém manifesta um determinado caso de racismo. É bom saber diferenciar o esperar de perder tempo. É óbvio que reivindicamos a séculos o lugar de fala que é de direito a cada indivíduo. Mas viver sob a demanda de comentar fundamentalmente desgraças e polêmicas da tendência também é uma forma de racismo que força uma disponibilidade desenfreada e nociva condicionada pela branquitude que se recusa a estudar. Enquanto isso as blogueiras brancas estão ganhando cachê pra viajar o mundo e falar sobre o seu “queridinho do momento”.

Eu percebo uma corrida alucinada das pessoas cobrando o posicionamento de influenciadores negros quando merdas como essa acontece, mas me pergunto a quem esse mesmo público recorre pra ver um outro entretenimento mais good vibes qualquer. Que influencia encomendada é essa que o público espera (faço parte desse público, óbvio)? Será que só tá sendo possível dar cabo de refletir se alguma certa “autoridade” discorrer antecipadamente sobre o caso? Estou aqui com meus botões…

Alguém me ajudar a responder?

Estamos exercendo um papel ativo de escuta e acolhimento com os influenciadores negros que seguimos ou apenas o de patrulha? Paramos pra pensar no tipo de ‘job’ que influenciadores negros e brancos fecham e participam?

Eu quero um cenário em que os influenciadores negros possam falar do que quiser e quando quiserem.

Não temos tempo para instruir defuntos. O nosso ainda corre mais rápido do que o deles.

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