O Veganismo que a gente precisa não pode vir da elite

O veganismo não pode se resumir a nicho de mercado, trata-se de uma luta política.

Eu começo esse texto com essa frase que ouvi no Instagram da @nandacuryx. 

Comer é um ato político.  Afinal, o modo como consumimos determina diretamente para quem estamos transferindo o poder e por consequência quem irá deliberar sobre as políticas que interferirão em nossa realidade. A alimentação moderna é fundamentada na exploração animal. Basta dar um giro rápido no supermercado pra se dar conta. Quando não compõe um ingrediente direto, há a prerrogativa do teste feito em animais. 

Além do grave especismo existente na prática que assassina compulsoriamente animais predeterminados unicamente para o nosso bel prazer, o consumo de carne animal configura atualmente o maior rolo compressor de destruição do meio ambiente com ramificação direta em nossa saúde. E o uso do termo “bel prazer” é de propósito pra indicar necessariamente que esse processo se resume a uma conjuntura de escolhas. Não temos qualquer necessidade biológica de consumir tais insumos. Eu poderia condensar aqui uma série de informações científicas que inclusive me alicerçou ao longo do meu processo de transição ao posto que me encontro hoje, o de vegetariano¹. Mas é possível identificar evidências aos montes com qualquer pesquisa prévia indexada no Google discorrendo sobre os riscos existentes na manutenção prolongada deste tipo de alimento.

O fato é: porque consideramos normal consumir animais mortos e/ou secreções mamárias que são biologicamente programadas para um bezerro recém-nascido? Porque preferimos ingerir medicações com enzimas que possam digerir a lactose ao invés de cessar o consumo, por exemplo? Um tipo de açúcar presente no leite animal que ao ser consumido de modo contínuo fomenta processos agressivos e inflamatórios ao organismo? Porque será que nos ensinaram a ingerir e a normalizar alimentos que além de nos fazer mal, promovem a destruição do meio ambiente?

A Revolução Industrial que estabeleceu o caráter escalável a produção comercial permitiu a universalização do consumo. O processo exponencial de capitalização da indústria fincou estruturas que compraram literalmente organizações detentoras de certa credibilidade para cristalizar no senso comum as tais benesses do consumo de produtos de origem animal. Ouvimos por aí que o cálcio do leite é essencial para os nossos ossos; que não há substituto vegetal equivalente para a proteína animal ou até mesmo para a famigerada vitamina B12. Vez ou outra surge um estudo aprovando e outro em seguida elencando graves ressalvas ao consumo do ovo e por aí vai…

Recomendo a vocês o documentário What the Health (Netflix, 2017) que levei meses para assistir devido ao arsenal de desculpas que a gente edifica para atrasar a decisão de parar de comer carne. Nesse documentário é possível ter uma noção do poder de lobby da indústria da carne e laticínios, bem como do seu poder de destruição do meio ambiente a partir de sólidos referenciais científicos. Fica difícil até pra negacionista climático contestar. Já ouvi argumentos comparativos que traziam até o próprio índio pra discussão. Será que é tão difícil assim perceber a dimensão global do que estamos lidando?

Além das problemáticas ambientais e nutricionais provocadas pelas políticas econômicas de exploração animal, é possível inserir uma lente de cunho sociorracial a discursiva. Afinal, o consumo sempre foi pautado pela divisão de classe e o consumo de carne sempre esteve vinculado a um determinado status social. Convenhamos que se trata de um produto consideravelmente caro para as classes menos abastadas, correto? E falar sobre classe recai automaticamente na discussão racial que tanto determina as relações nos diversos níveis em nosso pedaço de chão. O sistema excludente programado previamente dá conta de elitizar o movimento vegano e jogar lá no alto os preços de seus produtos. Por essa razão é vital pra quem reivindica a pauta na sua essência ficar atento as marcas que tentam fazer do movimento um nicho de mercado comercializando produtos ditos veganos enquanto que o restante da produção permanece sangrando vidas e desmatando o meio ambiente. Ao explorar esse universo você se dará conta inicialmente que as grandes redes, restaurantes e eventos vinculados a narrativa localizam-se nas áreas nobres das cidades e não por acaso, o tema assume por vezes o senso comum de ‘frescura’ de rico ou ‘brincadeira’ pra quem tem boa condição financeira. Esse papo ainda peleja muito pra chegar nas periferias. E eu posso dizer com conhecimento de causa que, mais uma vez, trata-se de um mecanismo homicida da classe dominante que detém o acesso privilegiado a informação. Não há nenhum segredo ou grande dificuldade no arroz, feijão, refogar legumes… tudo super básico e barato. No mais é pesquisa, experimentação e prática. Aprender leva tempo; mais ainda reaprender. Cuidar da saúde sim que é caro! E obviamente super rentável para as grandes corporações.

Nesse contexto é justo abrir um parêntese e citar uma galera sem autonomia alimentar que acaba refém de uma produção industrial extremamente barateada, com incrementos de substâncias químicas potencialmente nocivas que garantem o lucro pro dono do meio produtor e mantém a farmácia movimentada. Adivinhem qual parcela da população é a mais afetada por essa contextura? Pois é… vai refletindo aí. A população negra é maioria nas periferias e são empurrados na dianteira dos índices de pobreza e miserabilidade no país. É ainda mais desafiador falar de veganismo pra esse grande grupo quando sequer poder de escolha direta sobre o consumo ele possui. Como preterir a carne do prato quando uma das poucas refeições que se tem no dia é dada na escola? Ou como optar por um veganismo elitista que encarece e dificulta o acesso a produtos manufaturados do gênero? Não dá pra pensar em escolher o que comer quando a prerrogativa é sobreviver. É urgente para quem consegue escolher estando na periferia fermentar esse movimento. A revolução vegana precisa acontecer com capilaridade na periferia. Acessível e democrático. A discussão de políticas de fomento a essa alimentação é questão de saúde de pública.

A luta vegana reivindica a emancipação animal e traz consigo uma somatória de outras transformações com densa interferência em nosso micro e no macrocosmo; exige o acesso a informação qualificada e democrática sem interferência burguesa para que a população em geral decida qual linha nutricional deseja seguir; demanda alternativas que viabilizem alimentos de qualidade para uma número cada vez mais crescente de gente sem comprometimento das condições de vida no planeta; denuncia o desperdício gerado pela monocultura e defende a distribuição equilibrada de mercado sem incentivos à monopólios alimentares.

Para acrescer a discussão com um índice recente compartilho com vocês o dia de sobrecarga da terra². Este cálculo é feito desde 1986 e considera basicamente a extração de recursos renováveis feita pelo homem frente a capacidade do planeta de se regenerar no prazo de um ano. Para calcular, a GFN divide a biocapacidade mundial (a quantidade de recursos ecológicos que o planeta é capaz de gerar naquele ano) pela Pegada Ecológica mundial (a demanda da humanidade naquele ano) e multiplica-se por 365, que é o número de dias no calendário anual. O resultado representa a data aproximada em que acabamos com o orçamento da natureza e varia de acordo com cada país ou região. Isso significa que na data prevista pelo cálculo deveríamos em tese aguardar o período de tempo restante para que o planeta se recuperasse. O que não acontece, não é mesmo?! kkk (cada ‘k’ um lágima).

Desde 2001, o dia de Sobrecarga da Terra vem sendo antecipado, em média, três dias a cada ano. Este ano a data foi fixada em 29 de julho. A partir deste dia todo o consumo de renováveis como água, terra e ar limpo entrou no crédito, pois precisaríamos aguardar até o próximo ano para dar tempo da terra repor os recursos de modo orgânico e sustentável.

“O fato de que o Dia da Sobrecarga da Terra seja 29 de julho significa que a humanidade utiliza atualmente os recursos ecológicos 1,75 vez mais rápido do que a capacidade de regeneração dos ecossistemas”,

destacou a ONG, em um comunicado.

“Gastamos o capital natural do nosso planeta, reduzindo ao mesmo tempo sua capacidade futura de regeneração.” Isso leva a mudanças climáticas e fenômenos mais frequentes. A natureza cobrando a conta.

A projeção é de que até metade do século precisemos de duas terras caso queiramos manter o ritmo de consumo atual. Sendo que só possuímos uma, né?!

Outro ponto importante de ser ressaltado é quando se estratifica o índice por países (confira aqui). Obviamente as grandes potências despontam como grandes responsáveis pelo agravamento do problema. Se todo o planeta mantivesse o fluxo de consumo dos EUA, por exemplo, seria necessários quase cinco planetas terra para dar conta da demanda. O que evidencia o problema atrelado ao consumo capitalista desenfreado que suga matérias-primas dos países subalternizados para promover o autodesenvolvimento em suas terras (pretendo reservar um espaço fofo pra falar do capitalismo futuramente; me aguarda lindo). A palavra que se repete aqui é consumo.

Sabemos que individualmente ninguém promove revolução. Mas o indivíduo ao pautar possibilidades gera prefigurações que podem promover satisfatórios efeitos dominós. A proposta desse texto não é monopolizar verdades absolutas, mas provocar uma reflexão sobre a maneira como o nosso consumo repercute nas problemáticas que assolam a nossa materialidade e também a nossa subjetividade. O nosso dinheiro tem o poder de conferir quem vai continuar explorando e decidindo sobre os nossos recursos. Reconhecer privilégios tendo consciência de classe, reduzir drasticamente o consumo, comprar produtos com boa procedência ecológica e com produtores locais, optar por alimentos naturais e orgânicos, pode ser um belo princípio de transformação do status quo. O que a gente decide agora, repercute no instante seguinte.

Deixo aqui IGs que me inspiram cotidianamente num veganismo simples e saboroso. Simbora:

@alagoanaevegana; @vegana.bacana; @vegana.raiz; @veganoperiferico; @samantaluz; @thallitaxavier; @favela_organica

¹ O termo vegetariano indica aquele indivíduo que não consome nenhum tipo de alimento com origem ou traço de animal na sua composição. No processo de transição é comum estacionar no ovolactovegetariano que não ingere carnes (frango, peixes, mamíferos), mas consome ovo, leite e derivados. É diferente do vegano que além de não ingerir alimentos, também não consome nenhum outro produto que possua a exploração animal em sua composição.

² O conceito Sobrecarga da Terra (Overshoot Day, em inglês) foi originalmente desenvolvido pelo instituto independente britânico de pesquisas New EconomicsFoundation, uma organização parceira da Global FootprintNetwork.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s