Perspectivas Decoloniais de enfrentamento

Nos aproximamos do final de mais um ano humanoide e confesso a você caro leitor que essas linhas não estão fluindo num terreno fértil de otimismo e crença na nossa atual realidade. Mas como bem disse Nina Simone em um de seus riquíssimos insights socioculturais, o que também me mantém são é acreditar que as coisas irão mudar. E a escrita funciona pra mim como uma forma de organizar e ratificar esses pensamentos. E assim ramificá-los em mais um “tentáculo”, mais uma possibilidade.

Nesse hiato de não produtividade pro blog tive acesso a um arsenal de narrativas que me indignaram e fortificaram para seguir ensaiando alternativas que façam sentido pra mim, pra você; pra nós. Que façam sentido aqui nesse espaço. E falar de afrofuturismo tem a ver intimamente com a nossa continuidade enquanto ser social. Tem a ver com o “nós por nós”. Se relaciona com a emergência de narrativas com efeito pulsante e insurgindo dos limites subalternizados, das vozes marginalizadas, dos ecos e revérberos da maioria populacional dos centros urbanos e confins deste país. Uma população rica culturalmente transformada em minoria política devido a interposição ardilosa de uma discursiva hegemônica importada. É preciso ter em mente que esse espaço autoral de direito não será concedido pelo sistema opressor. Este, por sua vez, precisaria ser transcendido por nós. Esta seria a proposta de uma perspectiva decolonial de pensamento. Isso mesmo, sem o “s”.

A professora Celina Nunes de Alcântara (Outubro, 2018) diz que “As vozes decoloniais emergem, com efeito, não dos centros hegemônicos, mas dos limites, das periferias, “atacando” os saberes/poderes historicamente instituídos pelo longo curso de imposição colonial de que todos nós fomos e somos atores. Trata-se, de um lado, da luta pelo reconhecimento e reconfiguração geopolítica de outros saberes, outros conhecimentos e outras práticas, distanciando-se daquelas tomadas há muito tempo como verdadeiras.”

A narrativa decolonial se difere do conceito pós-colonial ou de descolonização devido a sua tentativa de reivindicar a geografia local de fala epistêmica dos indivíduos sem interferência de poder, ser e saber oriundos de concepções estrangeiras colonizadoras. Ou seja, não se estabelece um movimento de desfazer ou reverter o colonialismo, mas sim de transcendê-lo. No pós-colonialismo, por exemplo, não significa que os efeitos do domínio colonial foram suspensos no momento em que se concluiu o domínio territorial sob uma colônia. Ao contrário, os conflitos de poder e os regimes de poder-saber continuaram e continuam nas chamadas nações pós-coloniais (Costa & Grosfoguel, 2016). O organicidade decolonial culminaria então de um movimento dinâmico e contínuo de reconstrução cultural a partir da cosmovisão particular produzida do território de origem do ser social, abrangendo as mais variadas áreas de produção do conhecimento, sem amarras ou vícios hegemônicos. Que não se limitam ao ambiente acadêmico, diga-se de passagem.

As marcas da colonização europeia ressoam em toda América até hoje. O próprio nome do continente, vejam só, foi escolhido para homenagear o europeu que liderou a caçada as terras saqueadas. Os séculos seguintes produziriam então as grandes nações do norte que financiadas principalmente com commodities dos países do sul, determinariam o modelo global e hegemônico de relações humanas num espectro geral (do homem para consigo, com o seu semelhante e com a natureza).

No documentário “Guerras do Brasil” o escritor, pensador e ativista indígena Ailton Krenak discorre de maneira simples e didática o que fora a abordagem europeia assim que aportara em território brasileiro. Isso resume muita coisa. O colonizador europeu ao pisar no que viria a ser o Brasil tinha a única intenção de explorar economicamente as riquezas naturais. Conforme acrescenta Krenak, enquanto o modelo de organização social indígena incorpora o outro admitindo à sua diversidade ao acolher o estrangeiro completamente inábil a dinâmica de sobrevivência naquela atmosfera, a mentalidade europeia recém-chegada objetiva a dominação e a imposição de suas ideias. Neste mesmo documentário o historiador Pedro Puntoni complementa essa configuração marcada pela tensão de uma sociedade europeia que não via o outro, mas sim, algo a projetar sobre outro com relação ao que eles querem e ao que não querem baseando-se em suas diretrizes pessoais, visando obviamente o ganho unilateral.

Aqui os europeus, enquanto colonizavam os países africanos para configurar futuramente o maior tráfico de negros ocorrido nas américas, instituíam o que Puntoni denomina ao que era considerado na época de “Guerra Justa”. De modo que os índios que não aceitavam a fé estrangeira eram escravizados legalmente e neste caso significa que é justo guerreá-los, é justo matá-los e ocupar os seus territórios. O entendimento é de que ao se escravizar, salva-se a alma do índio e aniquila-se o seu passado.

O reflexo deste apagamento histórico opressor e altamente violento sofisticou ao longo do tempo mecanismos de aprisionamento recaindo obviamente naqueles que a discursiva hegemônica não pode contemplar para que a máquina de desigualdade flua. Aquela em que a grande concentração de riqueza continua restrita aos mesmos pouquíssimos ‘gatos pingados’ que controlam o status quo. E partindo desta conjuntura, não por acaso, a ocidentalização ou até mesmo o ideário de modernismo vendido pelas grandes potências tem o dedo do homem branco por trás de suas anotações embrionárias. É nessa perspectiva que a abordagem decolonial sugere rupturas a cada nova interação que principiemos a partir da raiz do pensamento. Sendo sujeitos efetivos de nossas próprias canetas e repercutindo os nossos semelhantes intelectuais, com o empenho de transconfigurar a dominação que atravessou o grande canal do tempo e se reinventa a cada nova tecnologia capitalista globalizada. Em outras palavras, o que é decisivo para se pensar a partir da perspectiva subalterna é o compromisso ético-político em elaborar um conhecimento contra-hegemônico (Grosfoguel, 2009).

O período da colonização, ao ser marcado pelo roubo sistemático de recursos naturais, pelo extermínio da população nativa e por conseguinte importada, reproduziu uma série de problemáticas em inúmeras contexturas da nossa realidade que inclui uma espécie de viralatanismo. Este, por sua vez, enaltece o conteúdo estrangeiro e ridiculariza as perspectivas locais que lutam diariamente pelo básico. As periferias brasileiras precisaram despontar ‘no braço’ tecnologias de sobrevivência que muitos alheios recorrem ao termo gambiarra para adjetivar. A periferia empreende desde sempre. E o Estado por sua vez insiste em aplicar políticas pensadas e programadas por agentes que não emergem sequer de longe desse locus social e as utilizam unicamente como objeto de estudo.

Alguém aqui já ouviu falar de Mecnologia? Trata-se de um conceito recém-saído do forno, que une a gíria carioca à palavra tecnologia para descrever a capacidade que moradores das periferias do Rio de Janeiro desenvolvem para permanecerem tranquilos em meio à violência e à escassez de direitos e serviços básicos, como saneamento, educação e moradia (Pense Grande, 2019). É trabalhar as gigantescas ausências impostas a realidade periférica e desenvolver arquétipos de sobrevivência nestes espaços. Alguns dos exemplos práticos sobre o tema descritos na matéria são o mototáxi que diminui as dificuldades de locomoção nas comunidades, os puxadinhos que resolvem os problemas de moradia, o banho na caixa d’água para aliviar o calor, o ‘dividir para multiplicar’, a ‘água no feijão’ e outras tantas ‘gambiarras’ que ajudam a periferia a criar sua própria forma de ser e estar na cidade, como descreveram em um artigo sobre Mecnologia (Mecnologia: a ciência da tranquilidade, Mendium, 2019) as jornalistas Marcela Lisboa, de 27 anos, e Thamyra Thâmara, de 30 anos. O conceito reflete a periferia num papel autoral de sua trajetória que fertilizam resoluções repercutidas positivamente para além das margens. É a partir dessa pavimentação que iniciativas ganham musculatura nestes territórios (tem bons exemplos na matéria supracitada) e se profissionalizam proporcionando acesso ao ensino, a empregabilidade e a reflexão do status quo pra uma galerona massa. E aí a narrativa decolonial dissemina mais e mais frutos. É negócio de preto periférico fazendo dinheiro e gerando um reparo social não causado.

Este é um exemplo do poder conversivo das tecnologias em erupção nas favelas. Reconhecer e fomentar este potencial narrativo garante que a periferia elabore incontáveis abstrações sobre sua existência e aprimore a sua práxis. É conferir a essa grande massa a possibilidade de ultrapassar o papel passivo do objeto de estudo e assumir uma atuação ativa e de direito na formulação de sua realidade.

Concordo com o Krenak que chama de ladrão quem vai contra a essa perspectiva. Ser conivente ou omisso com as práticas de manutenção da mentalidade desenvolvimentista colonial é dar continuidade ao assalto material e subjetivo engendrado pelas potências durante séculos até a nossa contemporaneidade.

É urgente lermos intelectuais negros locais tais como Abdias do Nascimento, Clóvis Moura, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro, entre tantos outros que podem nos ajudar a formatar nossos e novos quilombos. A periferia tem lançado exceções que fogem à regra. Mas não podemos esquecer da regra e da responsabilidade do Estado frente a ela. Precisamos atuar nesta regra. Espero que a minha prolixidade não prejudique a mensagem do texto.

Ao leitor, um abraço.

Imagem Rede Emancipa

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