Calma aê queridx militante

O que explicaria a eleição do atual presidente do Brasil? Por qual razão a população elegeria um candidato com evidente despreparo (basta dar um Google básico, tá amores?!) para dirigir os próximos quatro anos do nosso pedacinho de chão?

Bem… felizmente a resposta é complexa e exigiria linhas e mais linhas com argumentações. Não é o foco aqui! Em um resumo básico pode-se dizer primeiramente que tivemos um cenário construído nos últimos anos de total polarização ideológica e degradação do Partido dos Trabalhadores, a partir do processo de anulação política de seu maior líder Luis Inácio Lula da Silva. Em segundo somou-se a isso os discursos pautados pela fomentação de potenciais “riscos” sociais; da disseminação do medo; da sensação sistemática de insegurança catapultada estrategicamente pela campanha vencedora via uso maciço de Fake News. Por fim, também pontuamos como agente propulsor a precaridade discursiva postulada por determinados indivíduos e/ou organizações/movimentos dissonantes do conteúdo presente na campanha eleita. O texto sugere esses fatores e os consideram decisivos para o resultado das eleições. Para efeito nesta seção utilizaremos como objeto de análise o último tópico supracitado.

Ao empregar o termo “precaridade” não se contesta o conteúdo ou até mesmo a linha discursiva utilizada por determinado vetor, mas sim sobre o “veículo” ou a forma com que esses discursos foram conduzidos.

Vivemos uma era refastelada pela emergente necessidade projetada do saber. O fato de dispormos com extrema velocidade e facilidade de um número infinito de dados sobre os mais diversos temas condicionam interesses também infinitos pelo conhecimento e, consequentemente, em muitos casos, pela profusão dele. O cenário é frutífero com números crescentes de narrativas cada vez mais inclusivas e pluralizadas. Razões para comemorar não faltam. Entretanto, essa ainda é a mesma sociedade colonizada que se fundamenta num imaginário dissimulado de meritocracia e de vantagens individuais em detrimento do coletivo. É a mesma que discrimina o indivíduo pela sua classe social, cultural, ainda que ascenda minimamente. É a mesma sociedade patriarcal e falocêntrica que discrimina pelo tom de pele e reserva ao negro a absurdidade de correr ao quadrado para alcançar aquilo que dizem estar disposto igualmente para todos. É a mesma que discrimina pelo gênero, pelo sexo e assassina LGBTQs e mulheres apenas por serem justamente o que são. Ou seja, apesar dos claros avanços em contexturas cruciais do corpo social, precisamos considerar que estamos minando estruturas seculares de opressão. E isso leva tempo. Requer desconstrução conforme até textos anteriores deste blog já ensaiaram. Isso inclui didática, bom senso, formação de base e a partir da base.

As últimas eleições demonstraram o quanto precisamos entender que confronto e diálogo são contrastantes, bem como a opinião e o argumento. Opinião não é argumento. O primeiro carrega as suas paixões, as suas frustrações mais íntimas e dificilmente relativiza a pauta com a realidade particular de cada um. Enquanto a segunda precisa se fundamentar em uma viagem lógica com premissas factuais, coerentes e conclusivas (veja mais aqui). A rede virtual que utilizamos peca pelo fomento ao confronto direto de opiniões que naturalmente divergem, afastam e polarizam. Parece que por termos padecido durante tanto tempo em uma maré de inércia do saber e do status quo que, ao despertar dessa atmosfera apática devido às novas possibilidades de acesso, fomos tomados pelo que denomino de “Efeito Avalanche. Sabe quando você enfim é apresentando a uma narrativa que faz tudo ter sentido? Que desvenda o caráter discriminatório e excludente daquele contexto aparentemente inofensivo e igualitário? O sentimento de revolta é inevitável e com ele a manifestação imediata de querer abrir os olhos dos demais.

Quando você desperta para uma causa ou movimento quer sacudir o mundo inteiro pra fazer parte. Isso é natural e admirável! O problema é quando se desconsidera o contexto e o processo de cada um. Quanto tempo você levou pra ser despertado da Matrix? O texto não se preocupa evidentemente com os desonestos intelectuais que possuem o preconceito entranhado e utiliza-o como mecanismo de manutenção de seus privilégios. Esses são genericamente os donos dos meios de produção ou cria deles. O texto se dedica necessariamente à desenhar um projeto dialético com as engrenagens do sistema. A grande massa que põe a mão literalmente e trabalha para que as coisas aconteçam. A classe que pode efetivamente mobilizar a revolução que, espero eu, o prezado leitor deste humilde blog também acredita.

É preciso tomar nota de que conhecer as questões de classe, raça, etc. não te faz melhor que ninguém. Não dá pra cair nesse pensamento substanciado pelo ego se colocando num patamar acima de seu interlocutor crendo que apenas a sua manifestação é o suficiente para plantar qualquer reflexão mais densa.

Agora veja só: imagine aí um forasteiro da sua rotina chegar repentinamente e querer ditar como você deve pensar ou agir? Como reagiria? Não muito bem, né? Fora assim que os portugueses fizeram inclusive com os índios ao aportarem aqui. Chegaram dizendo o que julgavam errado e como os filhos desta terra deveriam se portar. Trouxeram o sentimento de vergonha aos vossos corpos, o sentimento de inferiorização com relação às suas vestes, às suas práticas. Quiseram catequizar. De quê adianta tanto empoderamento se na única possibilidade de germiná-lo o que se faz é replicar o gene colonizador elitista, arrogante e separatista? É preciso ter cuidado. É preciso ter disposição pra dialogar de maneira empática considerando o materialismo histórico inerente a cada dinâmica. Os textões da internet podem disseminar reflexões e conhecimentos mas inviabilizam a dialética em sua essência se discrimina, ofende, ironiza ou inferioriza a capacidade reflexiva do outro e não particulariza a retórica daquilo que se defende.

É preciso se entender também enquanto militância e respeitar a diversidade natural que deve coexistir dentro dela. Ouvir as interseccionalidades e aproveitar os frutos que dela podem surgir. Até porque não existe movimento totalmente uníssono. Eles nascem, apesar da necessidade de haver um desejo maior e comum pra acontecer, da multiplicação sistemática dos efeitos causados pelo convívio nas plurais particularidades das relações humanas. Se você for um militante gay e negro deve ter em mente de forma clara que não existe acordar em um belo dia e escolher por qual causa pretende lutar. Como também não dá pra considerar a emancipação feminina se este mesmo movimento silenciar as mulheres negras e/ou transgêneros. Não há como estruturar um projeto social sustentável e promissor pra todos se em algum momento finjo não ver onde tá doendo no outro.

O debate atual sobre a criminalização da homofobia pelo STF, que utilizarei como exemplo, recai em problemáticas históricas de narrativas imbricadas que precisam ser discutidas com profundidade. Enquanto gay é evidente que o autor deste texto, ainda que numa posição desconfortável, se declara a favor da criminalização. Afinal, estamos falando do país com maior expressão no quantitativo de violências contra essa comunidade. Entretanto é preciso dizer que só manifesto apoio a criminalização por entender que caso a referida corte decida pelo contrário abriria-se um precedente perigosíssimo para a ala conservadora e fundamentalista deste país que se sentiria legitimada pelo Estado para prosseguir com os seus discursos de ódio. Mas ao se debruçar sobre a ação que tramita no STF é possível perceber graves deficiências e o por quê de ser inevitável se preocupar com ela. Estamos falando de uma proposta que pretende ampliar a aplicação da lei de racismo e inserir nesta, a grande questão da LGBTfobia. Uma associação que além de poder gerar problemas no entendimento jurídico numa futura diferenciação com efeito na promoção de ações específicas, não pune na prática, os casos de agressão física, lesão corporal ou assassinato. Visto que não falam nada sobre. Seguem a linha adotada pela limitada lei atual que tipifica a Injúria Racial e o Racismo restringindo-os basicamente à seara da discriminação verbal a honra subjetiva ou a dignidade humana. Ou seja, desconsidera a questão estrutural do racismo. Uma contextura, por sua vez, substancialmente assistida pela política de cotas, por exemplo. E pra piorar estacionamos novamente na prática punitivista encabeçada pela política de encarceramento. A lei “resolverá” tudo com cadeia. E sabemos bem quem vai pra cadeia neste país, certo? E sabemos também o tratamento oferecido por elas, all right? Pois bem! Não dá pra cobrir a cabeça e desnudar os pés. Não dá pra defender unilateralmente uma causa sem relativizar e criticar os seus pormenores, as suas interseções. Não dá pra pensar em liberdade à custa do esfacelamento alheio. É preciso discutir alternativas. E aqui falamos de estruturas, ok? Não esquece.

Olha só quanta coisa envolvida?! É compreensível a comoção do movimento LGBT com a causa. Me incluo nesse bonde. Ocorre que realidades marginalizadas geralmente se entrecortam e precisam ser vistas a partir dos seus diversos ângulos. Eu precisei praticar a escuta ativa pra me dar conta disso. A órbita é infinita e o caminho bem pedregoso. Não há dúvidas disso! Afinal ele foi trilhado pedra por pedra. Essas pedras foram jogadas na gente durante muito tempo da nossa história. Mas estamos aqui podendo fazer uma outra história. Compreender a solubilidade das relações e as suas ramificações para a construção de algo positivamente rígido e perene. Nesse contexto de militância é normal ficarmos desorientados com algumas arestas que existem dentro dos movimentos. Por vezes pensamos que por compartilhar traços comuns, todo o resto atua em consonância. Mas não é assim. O repertório teórico e prático de cada um é singular. Como disse Chimamanda Ngozi, em uma carta-manifesto feminista com quinze sugestões de como criar uma criança feminista, não podemos santificar os oprimidos. Ao discorrer sobre o comportamento de algumas mulheres com relação ao movimento feminista a ilustre escritora discorre:

“A misoginia feminina existe e deixar de reconhecer isso é criar oportunidades desnecessárias para que os anti-feministas tentem desacreditar o feminismo.”

Podemos aplicar esse contexto a qualquer outro movimento. Os oprimidos históricos podem sim oprimir. E não reconhecer isso pode fertilizar pseudos narrativas obstinadas em desacreditar o movimento em pauta. Nem todo preto se considera “irmão”. Nem toda mulher vai discordar como queiramos da submissão. Nem todo gay se sentirá acolhido pelo movimento. Vai ter preto criticando a militância; gay ou mulher idem. Vão querer te dizer quem é mais ou menos preto por alisar o cabelo, mais ou menos gay por desmunhecar, mais ou menos mulher por se emperiquitar. Mas já percebemos que o acirramento não é solução pra divergência; mas sim, decididamente, um combustível. É coerente mudar de estratégia quando notamos falhas na execução atual, confere? Afinal, acredito não ter como dar errado se a premissa protagonizar o respeito ao templo do outro, renegando qualquer sentimento raso de superioridade pelo o que quer que seja, né? Esse texto advoga pelo diálogo e pela formação de bases sólidas senhorxs. Vamos ocupar? Mas vamos ocupar bunitooo! Tá bem? Então tá bem!

Pra quem ainda não entendeu até aqui, deixo esse vídeo em que uma vendedora de praia desabafa após ser dito por uma banhista que ela deveria ser empoderada. Dá pra refletir um monte sobre contextos de discussão, lugar de fala, estruturas e por aí vai…

Imagem Will Counts, Arquivos da Universidade de Indiana, Setembro de 1957

Dedico boa parte destas reflexões ao Murilo Araújo, gay negro, cristão e ativista que serviu de inspiração e referência em diversos parágrafos (especialmente na dissertação sobre as problemáticas da criminalização da LGBTfobia no STF). Sigam @muropequeno nas redes.

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