14 de maio

Até hoje eu sinto calafrios ao revisitar às lembranças que possuo sobre os livros de história que tinha acesso durante a minha jornada estudantil, antes de ingressar na carreira acadêmica. Eles continham, em sua maioria, ilustrações artísticas famosas que retratavam romanticamente o que fora a escravidão e nos textos, se dedicavam a ilustrar verdadeiros contos da carochinha.

Não curiosamente o protagonismo era branco. Os grandes heróis eram brancos! Afinal tudo fora escrito por eles e sob a ótica deles. Por que tantas páginas dedicadas a cultura européia? Barroco, Renascimento, Iluminismo… Por que vimos até mesmo o exponencial Egito Antigo embranquecido? Machado de Assis embranquecido? A Princesa Isabel como símbolo de libertação da escravidão? A resposta é óbvia né amadxs! Racismo! Política de embranquecimento fundamentada na eugenia e no apagamento estrutural da cultura base de formação e miscegenação do país.

Foi no processo de pesquisa do meu TCC (Teoria de Conclusão de Curso) que fui atropelado pelas reais narrativas que transformariam completamente a lente que utilizava para compartilhar a matrix que dispomos hoje. Aqui eu descobri que existiram verdadeiros heróis nacionais anti-estruturais semelhantes a mim que não deveriam nada a qualquer um outro do MCU (Universo Cinematográfico Marvel). Isso muda muito. Muda tudo! Até porque representatividade importa sim! Me dei conta de que o protagonismo da libertação negra foi incrivelmente negro! Capitaneada e executada pelos nossos ancestrais.

O último país das Américas assina a abolição da escravatura num contexto de extrema pressão internacional, fato, mas, substancialmente fermentado por consideráveis levantes sociais orquestrados por grandes líderes negrxs. Ou seja, durante todos os longos anos de escravidão diversos movimentos estouravam em inúmeros pontos do país reivindicando, sobretudo, o direito básico à vida assim como os de pele clara dispunha. A Princesa Isabel fora apenas a autoridade incumbida em oficializar o inevitável. Se não fosse ela, seria qualquer outro herdeiro da Coroa. É no mínimo desonestidade intelectual atribuir mérito a ela. Uma cronologia básica extraída de um post recente do @savagefiction no Instagram (conheçam o trabalho desse cara) reforça a potência e a capacidade estratégica de movimentação dos heróis retintos de nossa pátria (Ganga Zumba, Dandara e Zumbi em Palmares 1580 -1695; Zacimba Gaba 1690; Conjuração baiana 1798; Revolta dos Malês 1835; Manuel Congo e Mariana Crioula 1838; Só 15% dos brasileiros eram escravos ainda em 1872; 1882- morte de Luís Gama, abolicionista, rábula e intelectual negro; Dragão do Mar, aboliu a escravidão no Ceará em 1884). A história precisa dar ao negro esse devido crédito. E só pra reforçar… perceba que o excerto inclui homens e MULHERES revolucionárixs. Nenhum livro que tive sequer citava quem foi Dandara ou qualquer uma outra guerreira. Racismo e machismo na conta. Repara só o tamanho da treta!

Nos anos que antecederam a abolição, enquanto a classe dominante era assistida economicamente pelo Estado com políticas medonhas de transição, tais como a Lei do Ventre Livre (Lei nº 2040) e a Lei dos Sexagenários (Lei n.º 3.270), a Princesa Isabel “finda” oficialmente a escravidão sem qualquer política de compensação para a população negra. Agora vejam só… nossos ancestrais “trabalharam” a vida inteira em serviços estritamente domésticos e manufaturados, sem qualquer tipo de instrução mais teórica e/ou técnica, sem moradia própria majoritariamente ou qualquer estrutura digna de acolhimento. E no dia 14 de maio de 1888 acordam “livres” em uma sociedade que os consideram lixo e literalmente sem alma até mesmo pela indigníssima Igreja da época. O resultado disso culminou na explosão sistemática de marginalizadxs de pele negra que preenchiam as calçadas como mendigos, as cadeias como presos, as ocupações subservientes análogas à escravidão para garantir subsistência. Já que muitos voltavam pros seus antigos donos.

Nesse processo é importante frisar que o projeto de extermínio da população negra segue com a cumplicidade explícita do Estado sob leis seguintes de segregação racial. Conforme citou o também notório @adjunior_real em outro post recente no Instagram, europeus empobrecidos receberam passagens pagas pelo governo para virem ao Brasil (L9801-1911) trabalhar em terras que poderiam ir para ou serem divididas com nossos ancestrais. É também o início do encarceramento em massa dos “vadios e capoeiristas” (D847-1890) com a criminalização da nossa cultura já demonizadas por todos os lados. Sendo, inclusive, até impedidos de estudar (D115-1839 e D1.331-1854/7.031A-1878). Pois é! Permaneceríamos por muito tempo sem o direito ao saber. Aliás, pra quem ainda sustenta o discurso contrário à política de cotas nas universidades a minha vontade é de esfregar educadamente essa lei na fuça. Se assim for possível. ‘rs

O fato é que não há o que comemorar com o 13 de maio. O Brasil fecha um ciclo com essa assinatura e lava as mãos para o que se segue a partir dela. Depois de exaurir objetivamente até a última gota, toda e qualquer aspiração de vida da população negra escravizada para satisfazer desejos econômicos, pessoais, sexuais… instituem-se estruturas dissimuladas e subjetivas para manter essa população distante do que consideravam sociável. Um processo indireto de assassinato em massa. Visto que as atrocidades de outrora não poderiam mais serem exercidas com cortinas abertas. O racismo inicia o seu processo de “sofisticação”. Nisto, não houve qualquer período de trégua ou passividade negra como costumam intuir. Os quilombos se espalharam por estas terras de forma organizada e genuinamente libertário. Se tornaram verdadeiras Áfricas VIVAS carregadas de conhecimento ancestral em solo brasileiro.

Atualmente ainda compomos os números mais expressivos em indicadores chave relacionados ao projeto de desmonte da qualidade de vida dos nossos irmãos, conforme textos anteriores já publicados neste blog. Somos os mais vulneráveis a receberem tiros e a serem presos pela polícia, temos o menor salário no mercado de trabalho, somos a última opção no baralho afetivo e por aí vai… Mas confesso que me mantenho confiante e vibrante a cada nova interação possibilitada pela nossa contemporaneidade conectada e compartilhada. Consigo visualizar e presenciar a sofisticação dos quilombos. Tivemos e estamos em avanço. Continuamos em movimento! É reconfortante descobrir que apesar de tanta desgraça tivemos um arsenal de combatentes que lutaram muito pra garantir o mínimo que temos hoje. Nossos ancestrais conseguiram não só preservar ao longo dessas feridas a nossa espiritualidade e cultura, mas também o brio, nossas interconexões. Isso é de uma grandeza exponencial. São eles e elas, nossos irmãos de luta, que devemos comemorar, reverenciar e por eles e elas seguir na luta com os mecanismos que dispomos na atualidade. E guardem a frase seguinte meus caros… O conhecimento é a maior arma que o homem pode ter para a garantia de sua emancipação. Eles sabem disso e farão de tudo para impedir. Vamos em frente! E não esqueçam!!! Nossa luta precisa ser posicionada. Bora?

O 14 de maio significou mais um dia de resistência para o negro frente a estrutura racista brasileira.

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