Um pouco de bíblia e homossexualidade

No transcorrer da história humana diversos agentes usaram a bíblia para defender os seus ideais mais profundos. Fora interpretada para defender cruzadas sanguinárias e inquisições abusivas, bem como para apoiar a escravatura, assegurando a segregação e o racismo, além de perseguir judeus e outros tantos homens e mulheres de fé.

Nos dias atuais ainda é possível testemunhar uma avalanche de fundamentalistas que insistem alicerçar o seu ódio e a sua resistência à diversidade nos escritos bíblicos. Concepções parciais que funcionam como um manto reconfortante às suas perspectivas de vida mais íntimas.

A bíblia esteve presente em minha vida desde pequeno. Durante muito tempo tive a possibilidade de estudá-la por intermédio das Testemunhas de Jeová. Foi quando acessei a maioria dos discursos que me fariam autocondenar-me por longos anos. O adulto é invariavelmente uma influência para as crianças. Temos ali um indivíduo notadamente mais velho e experiente sendo integralmente lido por um diminuto ser sedento para responder a tudo o que seu cérebro em plena expansão indaga. Quando as leituras bíblicas são transmitidas para uma criança se estabelecem “verdades absolutas” em suas mentes. Se esta criança for gay então; temos aqui os primeiros sentimentos de negação do próprio eu. Contesta-se e demoniza-se os instintos. Pior! Considera-se assim o discurso de redenção literal que lhe é vendido instantaneamente.

Com o tempo esse sentimento de frustração por uma certa “cura” que não chega se refestela com uma miscelânea de outros sentimentos angustiantes inerentes às fases iniciais de desenvolvimento físico-cognitivo como puberdade, adolescência e posterior saída desta. Neste momento aquela velha criança se vê sozinha com os seus “monstros”. O reflexo deste processo é ainda mais difícil para quem convive diariamente com a religião. Quando a família inteira faz parte dela, por exemplo. Cheguei a me relacionar com pessoas deste contexto que ficavam muito mal logo após cada encontro – ainda que não rolasse nada – e com indícios claros de depressão.

Sempre contestei os discursos fundamentalistas que muitos diziam vir da bíblia. E mais recentemente tive acesso à narrativas aparentemente conflitantes. É possível ser gay e cristão, por exemplo? Eu imaginava que uma existência automaticamente anularia a outra. Mas não! Estava errado.

Neste vídeo, o Murilo Araújo – gay militante e cristão – disserta sobre “O que a bíblia não diz sobre a homossexualidade” e, foi esse contexto que me motivou a tecer os parágrafos que seguem num domingo de páscoa. Os escrevo em mais uma tentativa de trazer ao leitor ou leitora desconstruções que me ajudaram de alguma forma. Seja nas minhas leituras pessoais ou no modo como via o gay que se identificava com a religião.

Pra começo de conversa é importante frisar que compartilhamos de um Estado Laico. Isso significa que este mesmo Estado não pode fundamentar qualquer política voltada para os seus concidadãos a partir de um livro religioso. Seja ele qual for, independente do que diga. Visto que o Estado laico tem como princípio a imparcialidade em assuntos religiosos, não apoiando ou discriminando nenhuma religião. Nisto, a presente seção tem objetivos específicos considerando evidentemente quem acredita na bíblia ou possui alguma implicação imbricada na sua realidade afetiva a partir de narrativas extraídas desta. A abordagem do espectro cristão se dá pelos fatos empíricos brevemente introduzidos, bem como a sua notável abrangência.

As narrativas que geralmente utilizam para condenar a homossexualidade são invariavelmente tiradas de contexto. As pessoas esquecem por ignorância ou por desonestidade que a bíblia resume dezenas de inscritos realizados em períodos e sociedades distintas. No vídeo, Murilo destaca os textos geralmente mais utilizados para condenar os homossexuais – Levítico 18, 22 e 20, 13, Eclesiástico 16, 8, 1 Coríntios 6, 9, Romano 1, 26/27 – considerando para cada um deles uma análise conjuntural do contexto específico de surgimento. O fato inicial que grita aqui demonstra que os saberes sobre a homossexualidade no contemporâneo não se assemelha ao que se concebia como tal comportamento na época. Uma sociedade que em meio a inúmeros Deuses e divindades distintas ainda ensaiava o culto monoteísta a Javé. As escrituras precisavam discriminar as práticas que anexadas aos demais cultos politeístas saltassem como fatores sobressalentes e assim fosse mais fácil diferenciá-los do culto monoteísta. Assim sendo, os comportamentos manifestados que se relacionassem com algum outro Deus seriam, por sua vez, considerados pagãos e rechaçados nas escrituras sagradas. Numa tentativa de distanciar os discípulos e o Deus das Boas Novas dos demais agentes daquele corpo social. Numa rápida síntese, ok? Acompanha aqui…

Um texto famoso que geralmente usam para condenar a homossexualidade descreve o ocorrido em Sodoma e Gomorra. Citados por Murilo no vídeo relata em resumo que, baseado na tradicional lei da hospitalidade, o tal Ló (reconhecido como sobrinho de Abraão e morador da cidade) recebe dois homens forasteiros em sua casa, que na verdade seriam anjos. O livro enfatiza que todos os homens da cidade cercam a casa de Ló para abusar sexualmente dos dois anjos. Em resposta, e respeitando a lei da hospitalidade, Ló decide entregar sua filha virgem para preservar os visitantes. Nisto, os anjos então cegam todos os homens de Sodoma e Gomorra antes que o caso fatídico transcorra.

Quem usa este texto pra condenar a homossexualidade desconsidera inicialmente a tentativa de estupro e os demais eventos que ocorriam nas cidades. Desconsidera, inclusive, que se a homossexualidade em si era condenável e proibida, como explicar o fato de que todos os homens na cidade eram gays conforme o livro afirma? Dos mais novos aos mais velhos? Não questionar esses pontos promove uma análise parcial e preconceituosa daquilo que fora intencionado na essência pelas escrituras. Ao se debruçar sobre as narrativas pautadas fica mais evidente que cada passagem condenava práticas que se relacionassem mais diretamente com a idolatria. Ou seja, o comportamento religioso vinculado ao culto de Deuses considerados pagãos e não a prática em si. Isso faz muita diferença para o entendimento das razões de causa e consequência. No capítulo seis da carta de Paulo aos Coríntios há uma reclamação de Paulo devido aos cristãos levarem seus problemas para serem resolvidos em tribunais pagãos. E no entendimento de Paulo as nações pagãs não herdariam o reino de Deus. O que levava-o relacionar determinadas práticas sexuais aos pagãos. Uma sinalização de que a preocupação em si não recai em sentidos puramente morais, mas sim em ramificações de ordem religiosa. No texto sobre Sodoma as inúmeras práticas condenáveis listadas também são relacionadas ao construto social com um viés religioso. Ainda que algumas traduções variem certas denominações.

As variadas passagens bíblicas condenam práticas tais como o divórcio (Gênesis 2:24; Mateus 19:3-6), os homens que cultuam cabelos cumpridos (1 Coríntios, 11, 14) e até homens que se relacionam com mulheres no período menstrual (Levítico 15:24), dentre outras situações. Ou seja, trata-se de uma contextura completamente distinta que proibia inclusive o homem de ter cabelos cumpridos. Paulo cita em suas cartas aos Coríntios a palavra “natural” para condenar aquilo que foge do que é considerado comum a época. E aqui é possível compreender o “natural” dito por ele com teor socialmente posto e não no sentido biológico como se costuma associar. Já que no sentido biológico o comum era que se deixasse o cabelo crescer, concorda? Nisto, do mesmo modo que hoje não se usa mais a bíblia para considerar condenável o corte masculino ou até mesmo o divórcio, porque se mantém o crivo indistinto para a homossexualidade? Porque não contextualizamos? Visto que na atualidade os homossexuais não se relacionam para cultuar Deuses como outrora? Não seria no mínimo irresponsável transportar as escrituras de uma época para outra de forma literal sem qualquer criticidade ponderável? São esses questionamentos que almejo trazer. Pretendendo acessar principalmente pessoas como aquelas que me relacionei e citei acima. Indivíduos que se relacionam com a religião tendo certa afinidade mas possuem também a identidade cerceada devido à regras gerais questionáveis que são jogadas em seus colos irresponsavelmente por leituras fundamentalistas. Não à toa, o Jesus que muitos tentam pintar através do discurso de ódio, difere bastante daquele passante pela velha Jerusalém. No mais, reitero que o vídeo utilizado para fundamentar e até transcrever a maioria dos pontos deste texto traz várias outras reflexões pertinentes. Vale o clique. E claro! Adianto que o vídeo é longo. Prepara o café. ‘rs

Caso não tenha ficado claro, informo que não me considero cristão. Sou profundamente curioso. Confesso que julguei a religião por muito tempo devido ao que boa parte de seus seguidores fazem com ela. E algumas leituras desmistificaram bastante coisa. Assim me aconteceu com o espiritismo e recentemente com o candomblé. Sabia que Exu nada tem a ver com demônios? O homem tem o dom de interpretar e aplicar as conclusões de forma racionalizada em sua vida. Muitos ainda o fazem de forma precária ou dissimuladamente arquitetada em prol de seus ideais fundamentalistas. Questionar aquilo que se apresenta pronto surge como única alternativa para quem foge ao esquema predeterminado.

Quem se identifica com alguma religião precisa ter em mente que nenhum livro sagrado pode ser utilizado como critério validador das particularidades e direitos de ninguém. A religião precisa funcionar como um potencializador e/ou local de aconchego para aquele que a escolhe. Que assim possa ser seja qual for a religião que você adentre.

O texto que se conclui tem consciência dos pontos omissos e de sua superficialidade ao tratar sobre o tema. Mas espera cumprir o papel de provocar uma discussão necessária e oportuna. Tem muita coisa na rede. Vale conferir também. E caso você discorde, queira corrigir ou deseje acrescentar algo, não fique acanhado. Trocar ideias é bom de mais da conta. ‘rs

#TAMOJUNTO

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s