Depressão em terceira pessoa

Imagem Pexels

A depressão é uma doença! E precisamos parar de tentar inserir qualquer relativismo nessa afirmação. Você contesta a patogenicidade da diabetes, por exemplo? Evidentemente não! A peculiaridade da depressão em relação às demais enfermidades pode ser explicada em decorrência dos seus sintomas serem geralmente imperceptíveis ao olho nu. Ou seja, ignorância meus amores. Desinformação! Trata-se de uma doença incapacitante. Ela deteriora a psique e na maioria das vezes quem a carrega dificilmente assumirá o semblante clichê que alguns ainda insistem associar a depressão. Esqueça o estereótipo do cara abatido e enclausurado. Muitxs seguem a sua rotina normalmente e mantém inclusive o senso de humor. A ciência traz diversas explicações sobre as prováveis causas. O fato é que o complexo sistema social que dispomos fornece uma gama de agentes potencializadores. De todo modo, algumas teorias denotam que a depressão se estabelece quando há uma interferência significativa no nível de alguns importantes elementos químicos do cérebro chamados neurotransmissores. E ninguém é totalmente imune.

Padrões morais e estéticos gerenciados por uma classe dominante geradores de preconceitos velados, como o racismo, que flertam diretamente com a hipocrisia. Cobranças de todos os níveis com chuvas torrenciais de expectativas jogadas ao outro indiscriminadamente. Tudo isso potencializado pelo tempo cada vez mais curto frente a uma demanda de atividades infinitamente crescente. Nisto, entram em cena também o vasto repertório de psicoativos, como o álcool, utilizados aos montes numa espécie de descompressão da vida cotidiana que proporcionam os estados alterados de consciência. Sem esquecer, claro, da genética e da alimentação industrializada quimicamente manipulada. Sim! Existem cada vez mais vertentes que relacionam a nutrição como fator preponderante.Essas e outras prováveis questões que deixo para você meu caro leitor refletir condicionam a nossa psique a um caldeirão de sentimentos desconhecidos. Pouco explorados devido, principalmente, a nossa cultura que sempre marginaliza os considerados “maus sentimentos”.

No alto da batalha deste autor contra a prolixidade é válido afirmar que o presente texto não vislumbra qualquer dissertação técnica sobre o tema. A recente introdução visa elucidar fatos básicos que o próprio escritor destas linhas desconhecia. Com isso, a narrativa que segue é basicamente pessoal e empírica (Como todo blog né kiridas?! ‘rs).

A depressão tem me dado às mãos regularmente. Não sofro dela. Convivo com pessoas que a enfrentam. E é a este desafio que a seção se aterá: a depressão em terceira pessoa.

Pra início de conversa: Se informe!

É automático! A desinformação afasta! A primeira reação que geralmente temos ao lidar com alguém acometido pela depressão é lhe oferecer um kit básico de salvação. Uma espécie de nécessaire contendo itens considerados mágicos, tais como “vai ficar tudo bem”, “você precisa ser forte”, “sai dessa” e por ai vai. Sinto lhe dizer que você não tem a solução do problema. É super frustrante eu sei. Mas o quanto antes puder se dar conta disso, melhor. A depressão não se relaciona com os estados comuns de tristeza. Cada um percorre um caminho particular até chegar nela, e por essa razão, é também específico o caminho que cada indivíduo precisa pegar pra tentar decodificar o estado em que se encontra. Por isso é importante pesquisar sobre o tema. Ler os discursos técnicos, fundamentais e as suas discordâncias. Ouvir sem qualquer juízo de valor as narrativas de quem realmente sente o que se passa. Quantos forem possíveis. Munir-se de informações sobre as sensações e cosmovisões do outro possibilita um olhar mais humanizado e menos pré-programado socialmente. Olha a empatia brilhando aqui lindx.

Demonstre interesse!

Interesse em saber, interesse em estar, interesse em seguir conforme já se relacionavam. É um desafio! Eu sei. A pessoa que sofre a depressão provavelmente não estará afim de muita coisa. Pode ser que tente se esquivar da sua presença ou até mesmo da menor possibilidade de manter contato. Neste momento é importante demonstrar claramente o seu interesse e a sua preocupação com o outro, sem ser invasivo. A essa altura o sentimento de culpa certamente transborda no corpo acometido pela depressão. Culpa pelo o que sente ou até mesmo pelo o que não sente devido a alguns estágios de extrema neutralidade. Isso mesmo! Inexistência total de sentimentos. Há inclusive a culpa pelo o que pode causar nas pessoas que gosta e o arrodeia. Estágios que pulsam feito vulcões em erupção a cada novo sussurro dos “sabotadores” em suas psiques. Haverá momentos em que deixa-lo quietinho será a melhor alternativa. Não existe receita pronta. A depressão não é constante visto que a intensidade dos sintomas varia bastante. Todavia, o que diferencia a tristeza comum da depressão é a duração dos sinais. Há picos e vales quase sempre cavados e suavizados para que o depressivo se sinta em desespero e fique sem respostas, mesmo que viva relativamente bem. Por essa razão muitos não conseguem oferecer retorno sobre o que pode estar acontecendo. Respeite! É preciso ser paciente, consciente e responsável nas palavras e nos atos. O tempo é sempre particular.

Saiba se cuidar!

Conforme ensaiado acima, estamos falando de uma conexão que exige discernimento e responsabilidade emocional. Lidar com a depressão é sinônimo de luta diária com as próprias interseções da vida. O nosso intelecto é resultado de um campo gigantesco de encontros, reencontros e de batalhas internas com os inúmeros e diversificados “totens de nós mesmos” criados durante a vida. Cada totem representa uma experiência ou um conjunto delas. Uns vão, outros se estabelecem, evoluem e tomam formas; esplendorosas e/ou assustadoras. Eles se comunicam a todo o momento e interferem diretamente no que julgamos e decidimos. Estão certamente aí agora com os seus repercutindo cada paragrafo desse texto (‘rs). Imagine agora como deve ser este mesmo campo de totens em um indivíduo com depressão?

Durante um de seus picos de depressão uma amiga próxima conversava com outra amiga em comum relatando sobre o seu grau de desesperança e que às vezes pensava em dar um fim nisso tudo. Essa amiga nossa me confidenciava em desespero às conversas numa tentativa de dividir as impressões. Nesse meio tempo as oscilações de humor da amiga que ameaçava dar um fim a tudo se intensificava. Era perceptível como a outra que recebia diretamente os desabafos teve por um bom tempo o seu emocional combatido consideravelmente. Até por que… se pouco sabíamos lidar com as nossas emoções, imagina processar inclusive as inconstâncias do outro acometido pela depressão? Foi necessário cuidar da gente. Nos organizarmos enquanto rede de afeto e fortalecer um ao outro. Através, inclusive, de consultas com terapeutas. Nisto, enrijecemos o contato com a família para que se mantivessem vigilantes. Visto que a mesma seguia normalmente a sua rotina entre o trabalho e o seu curso superior. Todo esse processo foi crucial para que eu pudesse perceber as nossas limitações e se conscientizar delas. Conforme disse no início, não temos a solução. E sofri por isso por certo tempo. Trata-se de uma pessoa que eu amo e quero muito bem. Hoje considero que apesar de não trazer soluções cabais, posso sim ser um elo.

Em outro episódio uma colega da época do trabalho postou em sua rede social que iria se matar em instantes. Ela já vinha fazendo posts suicidas subjetivos onde se despedia e repostava textos amplos sobre o tema. Tentei entrar em contato com a mesma e com seus familiares. Denunciando a rede social sobre o teor dos posts e ligando em seguida para os órgãos competentes. Felizmente, a família da jovem já havia tomado conhecimento e a conduziu para o centro médico em tempo hábil. Ao conversar com a mesma posteriormente constatei a sua garra ao lutar por mais de dois anos contra depressão e o quanto o papel da família e de amigos próximos pode influenciar. Para o bem ou para o mal. Seu relato sinalizava o despreparo e a truculência das pessoas ao lidar com o tema, bem como a singularidade de sua mãe e do seu companheiro em lidar com tudo isso ao proporcionarem o devido suporte emocional. Ela segue lidando.

E é basicamente isso meus caros. Estar presente! Até mesmo se for pra não falar nada. Haverão dias em que só um cafuné ou um olhar afetuoso já é suficiente. Tenha em mente que a depressão é controlável. O tratamento adequado aliado a tudo isso que foi discorrido pode além de controlar a doença, recuperar a qualidade de vida e evitar recidivas, uma vez que o paciente aprende a identificar e lidar com os sinais.

A literatura orienta que o primeiro passo é buscar auxílio médico. O fato é que muitos ainda resistem a essa constatação. Haverá aqueles que até frequentam, mas param por não perceber melhora significativa. Neste caso, além do contexto de vida do paciente é preciso se ater a escolha do próprio terapeuta e a disciplina no tratamento. Visto que a própria terapia também não soluciona nada de uma hora pra outra. É necessária uma postura honesta do próprio paciente com tudo o que for exposto. A partir daí o terapeuta trabalhará na tentativa de orientar a devida organização ou decodificação de cada tópico trazido. Reforço que não há passe de mágicas.

Se você convive com alguém que sofre de depressão eu te peço pra não desistir. Enquanto houver vida há sim possibilidades. Se informe e procure uma terapia inclusive pra você. Há várias alternativas gratuitas espalhadas pelo país. O final do texto conterá algumas instituições. Nunca se omita ao menor sinal de comportamentos suicidas. Peça ajuda! Atualmente o Centro de Valorização da Vida (CVV – 188) atende a todo o país e oferece apoio 24h para quem sofre de depressão ou para quem convive com alguém que sofre.

E se for você o acometido pela depressão eu quero lhe dizer que você não está sozinho. Possa ser que o seu contexto faça parecer que sim. Mas você não está! Converse com alguém, divida o que sente. Se quiser pode falar até comigo. Manda um e-mail? Bora trocar umas ideias? Vai ser massa! Adoro misturar o meu axé com gente nova. ‘rs TMJ.

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