Uma viagem sobre barbearias, masculinidade e Bird Boxes

Imagem Jaluj

Atenção: Contém um pequenino Spoiler! O aviso prevê não criar inimizades com os amantes da sétima arte. Sigamos nos amando irmãos. ‘rs

Cintos ajustados? Pois bem! Se recostem onde estiverem apoiados para que possamos gozar de mais um voo em plena segurança.

Acredito que seja você um homem ou uma mulher cis, gay, travesti, trans, não binário ou qualquer outra tipificação, é bem provável que já tenha precisado em algum momento da sua jornada dos serviços de um barbeiro. Neste caso, você pisou em uma barbearia ou acompanhou alguém que precisou pisar. Se não alcanço a totalidade, certamente abarco uma maioria considerável que, como eu, frequenta com regularidade esses estabelecimentos. Evidente que não me atenho aqui as grandes franquias. Sou da periferia meus kiridos. Falo de barbearias administradas por indivíduos que empreendem com suas mãos de tesoura a trancos e barrancos dentro de suas favelas e garantem assim, o seu produto mínimo viável. Esses cobram o que posso pagar. E viva o comércio de bairro. Sempre foi um desafio pra mim adentrar esses ambientes. Foi em uma barbearia que conheci a masculinidade raiz. O patriarcado e todas as suas ramificações. Desde pequeno!

Ouvia sobre “comer garotas, quantas fossem”, “não chorar, pois é frescura de mulherzinha ou de viadinho”, “nunca voltar pra casa apanhado”, “falar mais alto que todo mundo”, “tirar sempre vantagem da minha força”, “quebrar a cara de viado”, e por aí vai… tem coisa que prefiro nem escrever aqui.

Sabe o covil dos “consideráveis” reis da selva? Eu tinha que estar nele quinzenalmente. Presenciei por diversas vezes diálogos sobre traições expostos de maneira orgulhosa. Nisto, qualquer manifestação tensionada em algum nível pela feminilidade era subutilizada e ridicularizada. Gays ou congêneres então… Deus de misericórdia! Posturas másculas tão festejadas que incluíam confissões de agressões verbais e estupros regulares efetuados contra suas próprias esposas. Salvo raras exceções, não havia quem considerasse estar cumpliciando qualquer irregularidade.

Se não me engano, chorei uma única vez ao cortar o cabelo. Depois do que ouvi sobre “homens chorarem” me dei conta de que não poderia mais sequer marejar os olhos. Afinal, meu corpo, minha mente, minhas sensações queriam que eu seguisse um caminho que certamente me conduziria a sofrer na pele, em algum momento, tudo aquilo que eles se vangloriavam ao expor. Quantas vezes dei duas, três, quatro viagens no quarteirão na expectativa de encontrar a barbearia mais vazia. Menos homens significava um menor risco de presenciar tais discursos ou de ser descoberto, provocado. Um estado constante de vigilância e inquietação que se expandia quando, ainda assim e inevitavelmente, percebiam algo denunciado por algum trejeito. Sabia que a partir disso tentariam me arrancar de um armário que até eu mesmo pouco conhecia sobre. Caçoam de você até a última gota. Já preferi pegar ônibus e ir em busca de barbearias distantes do meu bairro que pudessem fornecer o mínimo de sossego durante os longos minutos em que ajeitava as madeixas. Normatizadas por muito tempo, diga-se de passagem. Era na zero, invariavelmente. Entrava mudo e saía calado de todas elas. Perdi as contas das vezes em que levantava com um corte distante do que queria por receio de ter que falar e me expor.

Em Bird Box, a protagonista e seus filhos precisam atravessar uma floresta e um rio vendados para evitar entidades sobrenaturais que representam os piores temores de suas vidas, arrependimentos e perdas que poderiam levá-los a morrer por suicídio. É através da Bird Box (Caixa de Pássaros ou em nosso caso, gaiola) que a Malorie percebe a presença dessas entidades. As aves ficam super agitadas dentro da gaiola sinalizando que o “risco” se aproxima.

Guardada as devidas proporções, assim funcionou comigo. Em uma interpretação particular considero que a Bird Box existente dentro da minha cabeça se agita de forma enlouquecida toda vez que algo deste nível fica perceptível, como a necessidade de pensar em voltar a barbearia, por exemplo. Lá eu sabia que se concentrava os meus maiores monstros. Nada sobrenatural, obviamente.

Isso perdurou por longos anos e até hoje – onde considero que lido muito melhor com os ambientes que agitam a minha Bird Box – percebo que carrego sequelas. Quando não falo menos do que gostaria ou diminuo o tom; engrosso a voz involuntariamente. O fato é que se trata de um exercício constante de aceitação e de imposição. Sinto decepcionar caso esteja ansiosx para que lhe forneça um mapa ou manual relacionado a isso. É muito particular e envolve contextos específicos. Posso considerar que no meu caso existiu sim certa base familiar, o apoio de amigos, uma busca consciente por conhecimento, identificação, referências de todos os níveis e uma constante imersão naquilo que quero e sinto. Trabalhando inclusive num alter ego. Investigando cada sentimento. Me dei conta que o problema não estava em mim.

O sistema opressor que as minorias políticas compartilham ceifa boa parte do nosso tempo de vida. Porque é necessário construir personalidade num ambiente que tentar te esconder, diminuir, ridicularizar, te desmerecer a todo instante. É necessário dar duas, três, quatro viagens a mais do que os ainda privilegiados sociais, para conseguir se estabelecer emocionalmente. Isso para aqueles que conseguem chegar. Muitos acabam ficando pelo caminho.

A masculinidade nos moldes que conhecemos na atualidade é danosa e assassina de um canto a outro dos “confins” sociais. Uma pesquisa recente mostrou que 500 mulheres são agredidas por hora no Brasil. Sendo também o país que mais mata LGBTs.

Como sempre pontuo, trata-se de construções culturais. É um processo lento que se desenrola de pouquinho a pouquinho. É preciso desconstruir pra poder construir em seguida. Não dá pra levantar um novo edifício em terreno já ocupado com outra edificação. Óbvio né? Eu sei. Mas tem gente que se passa.

Ainda assim temos uma galera afim de reconfigurar essas engrenagens. Isso é muito bom! A internet é um espaço poderoso para ser aproveitado de forma estratégica. Se cuidando antecipadamente, sendo paciente e ciente de que não somos professores ou babás de ninguém. Não recomendo demandar todas as suas “penas” por isso.

Se você leu esse texto até aqui e for um homem hétero cis eu quero lhe dizer que ninguém tá conclamando guerra contra você ou contra a sua masculinidade. Ocorre que por causa dela, durante muito tempo uma galera sofreu e morreu. Se você está preocupado com isso o que te peço encarecidamente é que pare para ouvir, respeitando o corpo do outro e o lugar de fala de quem neste habita e sente. Você pode fazer diferente. Se posicionando sempre que possível contra os discursos que historicamente ainda oprime. Com calma, aos poucos… no almoço de domingo, com os colegas de trabalho na happy hour ou com os seu amigos mais íntimos em qualquer outro evento aleatório. Tem muito referencial bacana na rede pra seguir e se informar legal. Quantas pessoas assim você acompanha na artes? Na vida de modo geral? Não basta dizer que é contra! É preciso ser substancialmente “Anti” e assumir uma postura que viabilize a minação sistemática das estruturas tradicionais de discriminação.

Se você leu esse texto até aqui e for uma mulher ou algum LGBT eu quero lhe dizer que estamos no caminho e de mãos dadas sim. E não podemos nos esquecer de atuar nos casos em que a legislação assiste. Não tendo, inclusive, receio de pedir ajuda. Se você vive diretamente uma situação de violência certamente haverá alguém para te amparar. Se não do seu próprio convívio, é possível ligar para o disque 100 ou o disque 180, polícia, bombeiros, o Centro de Valorização a Vida através do 188 e por aí vai… Se quiser, pode falar até comigo. Considero a internet um quilombo moderno. A negritude resistiu bravamente ao nosso país se aquilombando. Fortalecendo o grupo e os laços. Fora assim que se mantiveram vivos e com suas tradições pulsando.

Acrescento a necessidade de estar também consciente de que dentro de quilombos há divergências de pensamentos e atitudes. Ninguém pensa como o outro até mesmo quando a dor é compartilhada. Coração e mente aberta. É assim que as coisas podem sair ou entrar, certo?

Conta pra mim o que tem agitado a sua Bird Box atualmente e como você vem enfrentando as “entidades” que a perturba?

Venho conseguindo libertar muitos pássaros da minha. Bora trabalhar nisso?

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