Qual engrenagem o seu dinheiro negro e/ou gay lubrifica?

Arte Gabriel Prado

Pra início de conversa é importante trazer informações claras e matemáticas sobre a potencialidade de consumo do público negro e do público gay. Os negros, que correspondem atualmente à maioria da população, movimentam R$ 1,7 trilhão no Brasil, revela pesquisa do Instituto Locomotiva. Enquanto que só os gays superam a marca do R$ 400 bilhões. Os negros atualmente também são maioria absoluta em número de empreendedores, mas concentram uma fatia de lucro consideravelmente menor, quando comparado ao empreendedor branco.

Os números que contradizem a maioria negra podem ser explicados facilmente por intermédio do racismo. A abolição homicida decretada sob forte pressão estrangeira em 1888 obrigou os negros a empreender da forma que sabiam. Foram arremessados ao limbo e acabavam inevitavelmente na informalidade. A liberdade que concederam aos nossos ancestrais acompanhava mecanismos que mantivesse o negro a margem daquilo que consideravam como sociedade. Sem possibilidade alguma de ressocialização, sendo inclusive impedidos de estudar, não conseguiam exercer atividades que exigissem capacidade técnica de qualquer espécie. Foi necessário ser por si e fazer por si. Lançar mão da criatividade para poder sobreviver.

A contemporaneidade deixa evidente que o sangue aguerrido dos nossos acentrais possibilitou avanços consideráveis. Mas muito ainda precisa ser feito. Para tanto, é importante avaliar que, conforme supracitado, consumimos bastante e ainda empreendemos mais. Mas por que o montante deste dinheiro continua majoritariamente em bolsos brancos heteronormativos? Bem… consumimos historicamente o que eles promovem! Ocorre também que ainda estamos de forma predominante em setores de menor lucro. Ademais, o acesso a crédito alinhado ao preconceito e a ausência de capacidade técnica figuram como alguns dos entraves que dificultam a melhora do quadro. Ou seja, racismo estrutural. Falamos de algo culturalmente entranhado. E isso reverbera notadamente em quem concebe, produz, fornece e consome. O mesmo ocorre com o gay que opta empreender. Já aqui, temos o adendo da homofobia como papel de fundo alimentando o distúrbio.

Não à toa, reafirmo em textos anteriores que a resposta a essas problemáticas deve ser acima de tudo, posicionada! Precisamos ocupar os espaços e aprimorar nossas capacidades. Racismo, homofobia, machismo…  se combate no dia a dia. Mostrando pro Seu Zé ou pra Dona Maria que nenhum rótulo social pejorativo jogado a nós pela imbecilidade preconceituosa tem qualquer fundamento na prática. Não existe “preto ladrão”, “preta raivosa”, bem como nem todo “viado adora sexo anal” ou dará em cima de tudo que é hétero, por exemplo. Somos corpos sociais e suas adjetivações devem variar por pessoa, não derivar de grupos. E sabemos disso. O ponto aqui é fazer com que mais e mais pessoas possam perceber também. E posicionar-se exige principalmente cuidar de si. Estar bem pra enfrentar os solavancos. Indo em busca daquilo que se acredita.

Feita as considerações, retorno para a pergunta título:

Qual engrenagem o seu dinheiro negro e/ou gay pretende lubrificar?

As marcas que você escolhe estão preocupadas com o fim do racismo e da homofobia ou com a manutenção destes? Adianta fazer publicidade incluindo a “cota” enquanto que toda a política de operação da marca permanece excludente como de costume? O artista que você segue e interage, proporcionando assim visibilidade nas redes para que este lucre ainda mais, tem algum tipo de engajamento pela sua causa? Quantos negros, gays, trans você segue? Quantos na música, arte, moda… você prestigia?

Essa discussão é necessária. Se, enquanto discutimos diversidade, seguimos perpetuando e concentrando o poder nas mãos daqueles que mantém a matrix do jeito que está, nadamos acorrentados a bolas de aço. Uma vez ouvi de uma das minhas inspirações, leia-se Monique Evelle, que unidade não é diversidade. Do mesmo modo que exceção não é regra. Faz todo o sentido. Ser crítico a este ponto nos faz despertar do parasita da meritocracia que tanto tentam inserir nas narrativas.

Direcionar o nosso consumo potencializa o Black Money e o Pink Money. Descentralizar esses mecanismos possibilita a multiplicidade de perspectivas tão necessárias a nossa sociedade. Ou você acha bacana ter apenas o homem hétero branco criando todo o tipo de conteúdo ou produto sobre e para você?

Articular estratégias para inserir efetivamente as ditas “minorias” na economia surge como vetor eficiente de combate ao racismo e a homofobia. Interferir e minar a concentração dos monopólios tradicionais de inúmeros nichos proporciona além de desenvolvimento econômico plural, fertilização social.

Iniciativas como a Feira Preta e o Afrobox que idealizam e executam políticas comerciais voltadas ao mercado afro se multiplicam e garantem lucro real aos seus envolvidos. Estamos falando de micropolíticas. São elas que viabilizam as macropolíticas.

É importante frisar que o texto não objetiva qualquer tipo de extirpação do consumo de conteúdo ou produto não afroproducer ou gayproducer. O nosso pensamento não é excludente. Pelo contrario, visa equiparar, reparando. Para isso, é necessário descolonizar o nosso pensamento. Já sabemos que enfrentamos um sistema sofisticado e por vezes silencioso, culturalmente posto. Assim, lidamos consideravelmente com o nosso subconsciente. Chega a ser cansativo encarar tantos processos, eu sei.

Nina Simone disse uma vez que o artista que não reflete a sua época pode até ser mais feliz. Eu incluo nesse time as pessoas comuns. Neste caso, o indivíduo que não reflete essencialmente a sua época pode ser em dado contexto mais feliz. Tem a ver com aquela pílula do filme Matrix, sabe? Aquela da realidade idealizada? Você toma e vive dentro da matrix… conjugando com suas engrenagens. Mas como também acrescentou Nina, eu habito um corpo negro e no meu caso ainda gay. Isso significa que por mais que eu desejasse imergir nesse mundo mágico e fantasioso de meritocracia, de que somos todos iguais, me esquivando inclusive do sofrimento dos meus irmãos, existe uma mão arqueando um chicote contemporâneo que me obriga viver na realidade. Sou um alvo.

Eu não tenho direito algum à pílula azul.

A ilustre Elisa Lucinda em entrevista ao Programa Roda Viva fez uma indagação que dialoga com o descrito acima: no momento em que o enredo histórico do racismo confere esse chicote contemporâneo que bate na mão de cada um de nós, precisamos nos ater de qual lado estamos. Abolicionistas modernos ou um escravagista? Perpetuaremos com a obra da escravidão ou assumiremos uma postura antirracista? Não basta ser contra o racismo. É preciso estancá-lo! E nossas ações cotidianas são determinantes. Micropolíticas senhorxs!

Fortaleça a sua rede. Fortaleça o que você acredita. O seu dinheiro pode determinar o que segue no sistema e o que será inviabilizado.

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