A Metáfora da Ministra

Descrevo esse pensamento a treze dias de governo Bolsonaro. De lá pra cá muita coisa já aconteceu. Uma avalanche de declarações, deliberações e decisões, algumas recuadas logo em seguida, que afligem discordantes do projeto em curso, mas não chegam a surpreender quando se considera o contexto de composição do poder.  Contudo, não ouso fazer qualquer análise política no que tange a estruturação do corpo executivo eleito em 1º de janeiro, mas sim, um alerta a forma como a oposição vem reagindo as previsíveis e preocupantes medidas tomadas a canetadas pelo governo.

Para exemplificar, trago a recente declaração da atual Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos no governo de Jair Bolsonaro, Damares Alves. Em um vídeo informal, a ministra diz que é inaugurada agora uma “nova era” no país, em que “menino veste azul e menina veste rosa”.

Foi imediata a repercussão na mídia e nas principais redes sociais. Artistas e anônimos contestavam a frase da ministra com fotos e textões acompanhados de tags que reivindicavam a liberdade de uso das cores e o combate à segmentação sexual com base em preceitos e predeterminações sociais. E era o óbvio!

Confesso que incialmente a minha indignação instintiva percorreu o mesmo caminho. Mas foi aguardando a resposta da ministra que tive condições de perceber o que esta manifestação trazia em seu núcleo. Damares explica que na realidade usou uma metáfora para comunicar que o Governo Federal irá trabalhar por ações embasadas no respeito à identidade biológica. Não tem nada a ver com Joazinho só usar roupa na cor azul. A ministra ainda retruca diversas acusações assumindo que nenhum direito adquirido será revisto.

Caímos no erro de subestimar o nosso antagonista político e atribuir-lhe adjetivos pejorativos.

É válido frisar antecipadamente que Damares é articulada! Caímos no erro de subestimar o nosso antagonista político e atribuir-lhe adjetivos pejorativos. Chamam Damares de louca, alienada, ignorante… e por aí vai. Na entrevista em que se defende das variadas acusações na Globo News, a ministra demonstra entendimento, boa retórica, agilidade nas respostas e nas colocações. Logo, ao passo em que é achincalhada de modo automático pelos seus opositores a cada novo viral, quando enfim argumenta, Damares é aplaudida pelos admiradores. Assim o governo culpa a oposição e até a imprensa de desinformação.

O discurso deles convenceu a maioria válida. Souberam o que e como querem ouvir. Se alinharam enquanto quem discordava era estereotipado nas redes.

Já vimos esse filme e a tática existente nele falhou, afinal, o cara foi eleito. Ou seja, faz parte do processo de organização reconhecer as capacidades até de quem nos opõe. Por mais que doa. O discurso deles convenceu a maioria válida. Souberam o que e como querem ouvir. Se alinharam enquanto quem discordava era estereotipado nas redes.

O fato é que lidamos com um governo ideologicamente direcionado. Além de conservadores, elevam uma única religião ao pico máximo da moralidade, preceitos e diretrizes que devem permear a sociedade. Na mesma entrevista, Damares que se declara ‘terrivelmente cristã’ afirma que é possível combater o preconceito “sem dizer para a menina que ela não é menina”. O governo acredita que existe certa doutrinação ideológica incluindo os professores na ponta de todo processo. Afirmam que as escolas estão influenciando na construção psicossexual ao disseminar conteúdos didáticos ligados à educação sexual.

Bem… A essa altura do campeonato eu acredito não ser necessário discorrer aqui sobre construções sexuais, gêneros e correlacionados. Falo um pouco no texto anterior e pretendo mergulhar nas narrativas e literaturas sobre este universo futuramente. Trazendo referenciais e perspectivas de fala. Não é o foco agora. Ainda assim, acrescento que se doutrinação ideológica definisse orientação sexual ou gênero teríamos certamente uma população estritamente heteronormativa. Não é o caso! Concorda prezado leitor?

Deste modo, quando Damares declara que o governo defenderá a identidade biológica em suas políticas, ressalta um discurso que fere a comunidade LBGTT. E, substancialmente, os corpos trans. Afinal, são os corpos que remam diretamente a duras penas contra a nociva ideologia binária que determina unicamente como ‘aceitos’ os cisgêneros.

Esta reflexão orientada especialmente aos corpos trans foi facilitada após ter ouvido a afrotransfeminista Maria Clara Araújo em seu perfil oficial no Instagram (@afrotranscendente). O que reitera a importância do lugar de fala e da legitimidade que precisamos transferir à intelectualidade desse grupo.

Os corpos trans tem acesso em geral ao primeiro bojo de discriminação coletiva nas escolas. Neste cenário são violentadas nos mais variados níveis, dos mais variados eixos (isso inclui agressões físicas e/ou verbais/visuais de colegas de classe, funcionários, professores, etc.). Quem sofre discriminação sabe o quão violento pode ser a atmosfera escolar. Você deve conhecer ou já ouviu falar de crianças que repentinamente desistem de ir num dia qualquer e optam em ficar em casa. Temos aqui exímios reprodutores comportamentais em uma velocidade incomum de aprendizado, replicando opressões captadas daqueles que deveriam ser suas referencias de tolerância, empatia e tantas outras ramificações.

Quando um governo multiplica orientações como esta, além de ser cúmplice dos potenciais traumas sociais causados no oprimido ao fomentar um ambiente de discriminação ainda na fase escolar, torna-se também corresponsável quando um trans é agredido e/ou morto nas ruas, becos e confins do país. Um adendo: O Brasil lidera o ranking de assassinatos de transexuais.

Os próximos meses serão potencialmente mais difíceis pra quem vive à margem em algum nível ou para quem se preocupa com aqueles que nela ainda estão. É importante nos organizarmos enquanto coletivo visando o fortalecimento da rede. Ver e reagir sem dedicar tempo para processar a informação é arriscadíssimo. Precisamos ficar atentos à emoção reativa. Perguntando-nos a cada novo viral de internet sobre os inúmeros cantos de cada abordagem. De onde vem? Por que é relevante? Faz todo mundo rir ou tem alguém sangrando pelo o meu riso? Quem sofre diretamente? Posso falar por eles? A escuta tem de ser praticada de maneira contínua e incessante.

Para finalizar, deixo uma pesquisa que corresponde fielmente o cenário mortal existente para corpos trans que se aventuram resistir por aqui. Nela, 66,4% dos homens trans já pensaram em suicídio, enquanto 41,5% já tentou pelo menos uma vez. É no mínimo ignorância achar que falamos meramente de suicidas ou que se tratam de casos individuais. Basta olhar a grandiosidade dos números. A comunidade trans está sendo assassinada quando é esquecida e privada de direitos básicos. Lhe negam acesso a informação, acesso a saúde, acesso a vida.

Quantos discursos trans você permitiu acesso a você neste ano? Escutar é um pontapé inicial generoso capaz de proporcionar acessos.

Sigam mais esses perfis trans no Instagram: @jonasmariaa, @rosadobarraco, @ericamalunguinho, @ariaritap, @lucca.najar, @raquelvvirginia. Deixem mais sugestões nos comentários.

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