Negritude e Afetividade Gay

Para nós de pele negra é indiscutível a existência do racismo. E se além de negrx você for gay, pode acrescentar a homofobia neste elevador social de opressão. Não suficiente; se o corpo em que você resiste for do gênero feminino é possível subir mais um nível catapultado pela misoginia. Sem falar nas existências trans que são ainda mais violentadas pelo corpo social vigente. (AINDA) Não tem jeito! Se você corresponde a alguma das conjunturas citadas acima terá certamente um ponto de partida mais distante e tortuoso em todos os aspectos quando comparado aos corpos padronizados na corrente heteronormativa branca. Principalmente na seara emocional, que pretendo discorrer a seguir.

Vale frisar que por reconhecer e respeitar o lugar de fala de cada ser social, o presente texto se aterá neste primeiro momento no campo da afetividade do gay negro. Djamila Ribeiro menciona em seu livro O que é lugar de fala? – dentre as inúmeras e valiosas colocações que o conceito parte da perspectiva de que as visões de mundo se apresentam desigualmente posicionadas. Afirma a autora:

“não estamos falando de indivíduos necessariamente, mas das condições sociais que permitem ou não que esses grupos acessem lugares de cidadania” (p. 61).

De modo que qualquer pessoa poder sim falar de perspectivas distintas, desde que se dedique a pesquisar e a investigar cada realidade. Contudo, apenas o indivíduo que sentir na pele terá efetiva propriedade de dissertar sobre suas vivências.

Feito isso… vamos as considerações.

Do mesmo modo que um hétero possui clareza de sua sexualidade e consequente libido pelo seu oposto no transcorrer de sua idade pueril para a puberdade, nós gays, temos da homossexualidade assim que os primeiros gatilhos lascivos ficam mais evidentes. É até redundante citar aqui os sérios desafios que uma biba kids (perdoe-me o senso de humor) enfrenta durante toda a sua jornada. É extremamente violento para a cabeça de uma criança ainda em formação inicial ter que decidir de que lado deve ficar, sendo que naturalmente e em seu íntimo ela já possui noção de que pelo menos este empurrado goela a baixo; não a representa. Podar toda e qualquer manifestação reativa espontânea advinda das experiências interativas possibilitadas a cada novo instante e normais a uma criança condiciona uma vigilância traumática, cruel e desastrosa. Onde o combustível para este comportamento resume-se principalmente pelo medo do contato, contraditoriamente do isolamento (sendo este mais atrativo) e pelo agravamento do sentimento de inferioridade.

Temos aqui um indivíduo que, se não for devidamente acolhido emocionalmente durante as suas descobertas mais íntimas, entrará na adolescência e posteriormente na vida adulta afetivamente solitário.

Seja a devastadora e ainda incompreendida atração pelo colega de classe ou a estranha afeição pelo novo vizinho, seja pela inexistência de referências ou até mesmo de abertura para expor suas aflições… desde pequeno o gay negro vê a necessidade de camuflar os seus sentimentos. A solidão admite neste contexto uma espécie de armadura. Uma defesa que se constrói a cada experiência de desprezo ou de deterioração através do contato e suas minúcias. Uma jornada a ermo que parece chicotear qualquer um que se atreva a questioná-la. Dentre as alíquotas de contribuição elegemos majoritariamente o racismo. Que confere historicamente legitimidade indistinta ao indivíduo de pele branca. O Censo Demográfico de 2010 do IBGE apontou que quase 70% da população branca se relaciona com pessoas do mesmo grupo ou raça. Enquanto os declarados pretos e pardos (que na divisão do IBGE representam os negros) correspondiam a menos da metade dos relacionamentos no mesmo critério.

A estratificação da realidade ilustra que, em geral, quando o branco procura o negro afetivamente temos um interesse acrescido das doses de curiosidade, fetiche, exotismo, compensação social, etc. Percepção estendida a muitos indivíduos negros que, por sua vez, acabam se relacionando com outro negro como única ou segunda opção. Isso tem a ver evidentemente com o imaginário histórico de seleção racista que já discutimos em textos anteriores e que não pretendo aprofundar agora. Somado a isso, temos o receio ainda existente entre os gays na exposição em qualquer nível de suas relações. Facilmente compreensível devido ao risco efetivo a integridade física, inclusive. A cada três minutos um gay sofre violência no Brasil. Em uma sociedade repressora e hipócrita que ainda cogita o disparate da Cura Gay. E que considera – vejam só! – a homoafetividade puramente promiscua.

Com esse caldeirão efervescente de ignorância violenta é inevitável a aquele que enfrenta e não sucumbe às opressões sociais a consequente marginalização de seus relacionamentos. São inúmeras as barreiras que precisam ser encaradas em muitos casos a sangue frio para que se possa usufruir o direito de se relacionar afetivamente com outra pessoa. Eu sei… é um leão por dia!

Mas sem querer apelar para clichês eu ouso afirmar que o caminho para a liberdade nos confere infelizmente suplantar sim este – ou estes – leão (oes) por dia. A outra opção é entrar no casulo e deixar que eles ditem como devemos viver. Se dedicar a uma fachada de relações padronizadas enquanto o seu íntimo é substancialmente esfacelado.

Para quem ainda acha que precisa deixar a sua fachada agradável e normatizada pros olhos do seu vizinho, eu tenho uma informação! Quem mora nessa casa da porta pra dentro é você. E sim, reitero não ser nada fácil permitir que a nossa fachada reflita o que acontece dentro de casa em uma atmosfera nociva como a nossa. É preciso ser cuidadoso, responsável. Mas é nesse processo que as boas e sinceras visitas aparecem. Não permita que o racismo ou a homofobia te paralise!

É essencial viver cada subjetividade e dar anuência para que ela transcenda os seus limites e as fronteiras sociais. Volto a dizer que nos deparamos com algo historicamente construído. Portanto, é preciso percorrer etapas pacientemente. E denunciando os casos cabíveis a lei. Reconhecer os avanços e se ater que o maior ato de revolução contra a opressão é além da luta, amar. Fora assim que tantos outros vieram lá atrás… amando, brigando com leões gigantes em busca do seu ser; do seu existir; do transcender. Honremos!

Responda predominantemente ao racismo, a homofobia, a misoginia e ao que quer que tente lhe diminuir de maneira posicionada. Aconteça! Normalize a sua existência baseando-se em perspectivas próprias. E que a sua decisão de vida, prevaleça! Liberdade meus caros!

Para fechar com chave de ouro deixo com vocês um texto do Marco Antonio Fera que transforma em poesia o sentimento percorrido acima:

Licença, Davis, King, Malcoln, Conceição Evaristo 
Hoje quero falar de mim, de feridas, de dor
Falar de ser, do ser negro, do ser homem, do ser gay, de ser só…
Licença, Cesaire, Mahin, Abdias, Lélia Gonzalez
Corpo negro, em mundo branco. 
No momento do flerte ouvi: – você é exótico, diferente, interessante.
– Mito ou verdade, é tudo aquilo que dizem?
Colocam a mão no meu cabelo, para sentir a tessitura, riem
Passam a mão na minha pele, para sentir a textura, fazem troça
Como crer ser digno de amor e afeto?
Como superar a auto-ódio e a baixa autoestima? 
Sempre acreditei que eu não merecia o amor! 
Corpo negro em um mundo branco.

A escola, ambiente castrador, movimento alienatário
Hormônios à flor da pele, descobertas, medo e violência 
Que queria ser inserido, fazer parte da massa
Minhas condições faziam estar à parte
Estando à margem, marginalizado está
Eu, o resto, a sobra, o que não dava encaixe, o excesso
Sozinho estará 
Não compreendia o processo
A dinâmica é sempre “clara”, “alva”, branca
Sozinho estará
Os pares se formam, 
Meninos gays se amando
Os discretos, os foras do meio, os “brother”, claro
E eu à espreita, sempre esperando 
De fora, assistindo, plateia
De vítima, me sobrecai a culpa
Culpa de minhas atitudes inadequadas 
A culpa de meu pessimismo negro
A culpa de meus “mimimis”
Inversão de papéis, valores, repentinamente 
– Não procura que você acha
– Se acalma que o amor vem
– Ainda bem que você não namora, é só dor de cabeça
A experiência dessa dor de cabeça eu quero ter
Precisei crescer amadurecer 
Precisei tornar-me negro, enegrecer-me
Imbuído da consciência negra 
Observando o meu rosto refletido no espelho
Ao som da voz rasgada de Elza Soares, compreendi
– A carne mais barata do mercado é a carne negra!
Entendi que o racismo, o sexismo e a branquitude 
Operam de forma sistemática em minha existência 
Em cada movimento do meu corpo e em cada espaço que ele ocupa
Não aceito mais o lugar do 
– Negão.
Negão não. 
Jamais, nunca, jamé.

E foram tantas aflições na busca incessante pelo amor
Amor aquele, que nos entende,
Aquele que nos manda bom dia no Whats às 6h da matina
Aquele que arranca da gente o melhor sorriso
Aquele que, a caminho do Aparelha Luzia, 
Te solta o verso de Liniker – “deixa eu bagunçar você”
Mas, como projetar o amor em uma comunidade que vive o cárcere da heteronormatividade?
Pra viver o amor gay, é preciso preencher pré-requisitos de corporalidades
Para conviver em espaços homo afetivos para além de ser branco, é necessário
Virilidade, masculinidade e performar heteronormativamente
Sendo homem negro então!
Voltamos ao negão?
Acho que antes do amor, eu quero descobrir onde está a humanização do corpo negro masculino…
Eu sou homem ou eu sou máquina? 
Eu estou vivendo ou estou a serviço? 
Na realidade, eu estou caindo e levantando a cada dia
Vivendo a complexidade da infinita descoberta
Me entendendo homem
Me entendendo negro
Me entendendo gay
Me entendendo belo
Me entendendo forte
Me entendendo…
No meio deste emaranhado de compreensões eu fraquejo
Mas me fortaleço
Descortinar-se é complexo, abrem-se fendas
Criam-se cascas, acontecem rupturas
Mas é preciso, é necessário
Estou vivendo cada dia, desabrochando, caindo, levantando, em busca de mim 
Em busca do amor.

Imagem: Pexels

REFERÊNCIAS

RIBEIRO, D. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.

3 comentários Adicione o seu

  1. Lays Souza disse:

    muito boa a analise do que é ser negro e gay num país racista. contundente e ao mesmo tempo terna e embargada de sentimentalidade. parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

    1. É uma alegria imensa ter um retorno tão acarinhado como este de alguém com esse repertório. Obrigado!

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      1. Lays Souza disse:

        Nossa plataforma está buscando colaboradores! Se afrochegue! afrotranscendencia@gmail.com!

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