Manual do Racista: como lidar com um (Final)

Racista Conjuntural Insciente

O grupo discutido aqui está relacionado a determinadas conjunturas experienciais que o fazem reproduzir comportamentos discriminatórios. A principal característica que o evidencia se relaciona ao fato de sequer possuírem conhecimento tácito sobre o discurso. Desde pequeno, ouvimos construções de cunho depreciativo a grupos de indivíduos em minoria política. Máximas que expressam: “Para uma negra, você até que é bonita” ou “Por que você não penteia o cabelo?” ou os dizeres “Amanhã é dia de branco”, “Cabelo ruim”, “Cabelo de Bombril”, “Cabelo duro”… Seguindo para “Quando não está preso está armado”… E ainda há os termos de conotação sexual que exprimem: “Você deve ser um furacão na cama”, “Da cor do pecado”, dentre outros. Poderíamos organizar um compêndio repleto apenas de generalizações preconceituosas que escutamos aos montes a cada almoço de domingo ou em qualquer outro encontro social, nas ruas, nas redes… Ao discorrer sobre o racismo, Guimarães (1999, p. 67) afirma que no Brasil trata-se de um racismo sem intenção, às vezes de brincadeira, mas sempre com consequências sobre os direitos e as oportunidades de vida dos atingidos. O Racista Conjuntural Insciente desconhece o histórico por trás de suas manifestações, pois sempre ouviu o discurso racista com naturalidade e nunca percebeu qualquer comportamento que reprimisse a sua propagação. Nossas crianças e jovens são os vetores mais suscetíveis a essa temática. O racismo é ensinado! Até mesmo nas escolas, boa parte dos livros didáticos oferecidos transbordam conceituações europeias e mitigam narrativas dedicadas ao aprofundamento teórico de estudo dos povos africanos que construíram em inúmeros níveis, diga-se de passagem, a nossa atual nação ainda enquanto colônia.

Ao presenciar um discurso racista nessa contextura incipiente é recomendável aferir a possibilidade de um diálogo com o vetor de manifestação do racismo. Isso, considerando evidentemente, os sinais prévios de como uma determinada conversa sobre o tema seja recepcionada com este interlocutor. Refletindo sobre as seguintes questões: Qual o contexto desta troca? Você conhece este vetor? O encontro acontece em situação de descontração ou se deu com ânimos relativamente exaltados? É importante considerar estes pontos para se proteger de casos eventualmente extremos. Ademais, é valido iniciar o feedback trazendo perguntas sobre o contexto em que o vetor avalia que essa piada pode ter sido originada. A partir dessas interpelações será possível verificar se é de modo consciente que este vetor descrimina. Perceba que a proposta em nenhum momento ambiciona julgar o interlocutor por suas práticas, esse processo deve ser autoral. Você apenas traz os fatos históricos. Trata-se de uma sistemática estrategicamente “mastigada”. O trabalho aqui é meramente didático. E reiteramos a necessidade de perceber certo interesse do racista em ouvir. É importante reconhecer a existência de pessoas que veem no racismo uma solução. Perceba que os eleitores declarados do agora eleito racista, homofóbico, machista, e misógino Jair Bolsonaro, mesmo confrontados com fatos; quando não colocam “panos quentes”, caracterizam como falácias inventadas pela grande mídia. Ou seja, ainda que o discurso preconceituoso do presidenciável seja facilmente assimilável, pois é possível encontrá-los com facilidade e nitidamente verbalizados pelo vetor em voga não sendo necessárias interpretações rebuscadas, o seu público opta corriqueiramente em relativizar. Fundamentados neste exemplo podemos estratificar os seguintes cenários com subgrupos de indivíduos: 1) o indivíduo indeciso mal informado, mas aberto à escuta; 2) o indivíduo movido essencialmente pelo ego e conservador; 3) o indivíduo oportunista focado na manutenção de seus privilégios que conhece bem os dois primeiros manipulando-os e dizendo-lhes o que querem ouvir. O último citado se privilegia destas narrativas. Mas como não podem assumir tais discursos publicamente, se escondem capciosamente em uma aparente ignorância objetivada em germinar dúvida e/ou a mera desqualificação de seu “acusador”. Temos, em tese, mais chances com o primeiro.

Racista Estrutural Velado

Nesse extrato consideramos ter subido um degrau no nível de dificuldade exigido para se relacionar com um racista. Aqui se admite que o vetor em pauta possua certo conhecimento histórico e de causa. Seria uma evolução do estado anterior. Acreditamos que quanto maior o tempo de exposição ao racismo, mais enrizada será as percepções e concepção de valores acerca do tema. É análoga a vida útil dos indesejáveis vírus que na medida proporcional de exposição, estudam o ambiente externo e disto decorrem suas metamorfoses ao meio. Contudo, temos a partir deste excerto um racismo de manifestação ambivalente. Explicamos melhor!

Com a modernização da sociedade é notório o avanço em aspectos relacionados à conjuntura dos direitos humanos. Já discutimos nesse texto que as relações raciais só fora efetivamente modificadas ao longo do tempo por intermédio da capacidade descomunal de levante da comunidade negra. Nesse processo a sociedade foi modificando a maneira como o negro era visto e recepcionado no conjunto social, engolindo – de certo modo – sua entrada a alguns espaços de direito. O projeto “higienista” de miscigenação a época contribuiu consideravelmente para esta mecânica. Em contraste a aqueles que verdadeiramente se sensibilizavam pela causa, havia os que intimamente resistiam à gradativa ascensão do indivíduo subjugado preocupando-se com a manutenção de seus privilégios. Recolhiam em seu imaginário os estereótipos ainda existentes, já que expor de modo escancarado como outrora não era mais aceito pela moral coletiva. Este vetor admite a situação de miséria social do negro, mas o justifica através do racismo entranhado. Nisto, no caso de uma eventual interação com indivíduos negros, era perceptível uma demonstração excessiva de simpatia com um teor velado de pena por aqueles em nível social e econômico deteriorado. Acreditam que esta simpatia pode gerar ações em prol desse grupo (Lima e Vala, 2004).

Nesse aspecto, o racista estrutural velado considera que o simples fato de compadecer-se em algum nível, direta ou indiretamente, representaria uma forma de compensação social individual e justificada devido à conscientização da condição inferiorizada que o negro ocupa politicamente, bem como o seu histórico de privações. E esta condição em si não chega a suplantar a compreensão equivocada e já consolidada no imaginário deste vetor de que essa realidade está relacionada com a incapacidade nata dos negros e a sua postura desviante dos valores morais da sociedade. Deste modo, a ambivalência resulta da dupla percepção de que os negros são desviantes e, ao mesmo tempo, estão em desvantagem em relação aos brancos.

A ambivalência de sentimentos e atitudes normalmente gera uma tensão e um desconforto psicológico (Lima e Vala, 2004).

Em síntese, examinamos que se trata de um incômodo mesclado entre a percepção de inferioridade do negro e o sentimento de pena. Um desconforto preocupado substancialmente com a própria imagem social do racista e sua manutenção psicológica, visando certa tranquilidade de consciência.

Para este racista também pode ser indicada a tática de diálogo redigida no tópico anterior, se observado evidentemente os requisitos. Porém, por termos aqui o adendo capcioso da ambivalência, considera-se que a dicotomia de intenções opera como um mecanismo de defesa que intrinca ainda mais o relacionamento com esse vetor. A didática deve vir acompanhada das potenciais consequências legais encaminhadas a determinados casos. O racista precisa ser responsabilizado pelo seu discurso.

Racista Estrutural Aversivo

Este indivíduo se difere do apresentado no tópico anterior com relação ao sentimento de aversão percebido ao frutificar comportamentos racistas. Aqui se tem consciência do extrato histórico de exploração, da sua característica injustiça, bem como o impacto negativo da disseminação de tais práticas nos dias atuais. No entanto, este vetor ainda reserva no seu âmago a construção que lhe foi ofertada durante a vida. Ou seja, continua ponderando que os negros podem ser organicamente inferiores em relação ao indivíduo de pele branca.

Para Gaertner e Dovidio (1986) o racismo aversivo seria o tipo de atitude racial que caracterizaria muitos americanos brancos que possuem fortes valores igualitários, mas que experienciam um tipo particular de ambivalência. Advém de um processo assimilativo onde se considera o sistema de valores igualitários e, por outro lado, a vivência de sentimentos e crenças negativas em relação aos negros (Lima e Vala, 2004). Esse fenômeno pode ser conferido facilmente em nossa realidade em indivíduos que se justificam como não racistas por possuírem “amigos” negros, ou por se indignarem a cada novo caso midiático de racismo, sem reflexo algum na maneira como agem diretamente quando presenciam o fenômeno estrutural.

Os sentimentos negativos em relação aos negros que caracterizam a ambivalência nos racistas aversivos não são sentimentos permeados de hostilidade ou ódio, mas de desconforto, somado ao nervosismo, a ansiedade acentuada e algumas vezes a um medo expressivo das pessoas negras. Estes sentimentos, ou melhor, estas emoções, motivam mais a evitação do contato próximo do que comportamentos destrutivos e violentos (Dovidio & Gaertner, 1998; Gaertner & Dovidio, 1986).

Este racista rejeita o discurso de ódio de forma consciente, mas o germina inconscientemente.  Além da didática, é imperioso o exercício de empatia promovendo o acolhimento para os casos devidos e nos oportunos a aplicação irrestrita da lei.

Racista Estrutural Convicto

Esse contexto caracteriza o racista ciente das tenras ramificações do comportamento discutido nesta seção e mais consciente ainda dos seus privilégios. Compreende que a manutenção destes privilégios necessita diretamente da perpetuação de discursivas do gênero. E possui real dimensão dos riscos que a narrativa racista pode representar legalmente. Apesar de muitos acreditarem que a lei em si não os puniria efetivamente.

Esse grupo pondera o juízo de potencial “ameaça” que a comunidade negra representa baseando-se na percepção de que os membros desta comunidade constituem um risco, sobretudo econômico e que, portanto, devem ser brecados. Assimilam ainda que a máxima condicionada pelos Direitos Humanos corresponde a uma completa perda de tempo.

Esse desprezo pelo indivíduo socialmente vilipendiado se entende a dimensão de preceitos que possam ocasionar inclusive em certa intimidade, definida como uma rejeição emocional ao contato íntimo, sexual e inclusive matrimonial (Pettigrew & Meertens, 1995, p. 62). Temos, portanto, o último nível percepcionado por esta seção de vetores que disseminam o racismo. Consideramos que este comportamento simboliza o indivíduo menos vulnerável as discursivas de enfrentamento as práticas discriminatórias. É comum passarem despercebidos pela maioria, pois suas posições, apesar de perpetuarem o racismo, vêm camufladas geralmente de um falacioso discurso de progresso e crescimento econômico com base preliminar na meritocracia. Como se no Brasil, todos tivessem a oportunidade de partir do mesmo ponto. Sustentam-se na narrativa de silenciamento das vozes que tentem reivindicar quaisquer espaços que possam conferir equidistâncias aos plurais agentes sociais que efetivamente possuem o poder de movimentação das engrenagens mestras do país.

Para estes indivíduos, além da resposta posicionada da comunidade negra ocupando os espaços e principalmente os de poder, conforme supracitamos é irrevogável a devida aplicação da lei. Sem possibilidade alguma de relativizações. É perda de tempo dialogar com este vetor.

A legislação brasileira ainda diferencia injúria racial de racismo (ver diferença aqui). Contudo, para ambos os casos é imprescindível o agrupamento de provas de qualquer espécie e de testemunhas, quando existente. E isto vale para os crimes ocorridos em ambiente offline e/ou online. Não podemos mais permitir que sigam ilesos (veja como e onde realizar denúncias aqui). O Ministério Público da Bahia lançou no dia da Consciência da Negra um aplicativo para fazer denúncias.

Racismo é crime! E reivindicamos a este o termo hediondo! Visto que, para além das questões axiológicas envolvidas, sua aplicação reverbera na sociedade uma forma dissimulada de assassinatos de indivíduos negros. Nisto, os assassinos indiretos saem ilesos e usufruindo dos famigerados privilégios a custa da deterioração social do negro. Tornou-se clichê ouvir do disseminador preconceituoso que a comunidade negra faz um sonoro “mimimi” ao vociferar tais discursos. Termo este geralmente enquadrado a qualquer minoria política que decida impedir a perpetuação de determinada discriminação. Na tentativa de minimizar a dor daquele que sente comparando-a a uma mera insatisfação fundamentada na birra. Esse é o principal discurso do opressor: reclamar quando lhe é impedido de oprimir. E assim relativizar as manifestações do oprimido.

Temos um caminho árduo pela frente, mas com frutos vistos a olhos nus! Seja através de um número crescente de crianças negras que hoje possuem autoestima suficiente pra falarem sobre suas vivencias na cibercultura ou do adolescente que desistiu de raspar a cabeça e hoje lucra com o seu Black Power nas redes. A proposta é continuar lançando mão do discurso. A luta contra o racismo é diária. Trata-se de construções seculares validadas por todos os setores sociais da estrutura cívica brasileira. Sigamos então fazendo barulho! É pra isso que este novo espaço faz parte do cosmos agora. Fora assim que tantos outros fizeram lá atrás e hoje podemos gritar cada vez mais alto. Foi assim que nossos ancestrais modificaram as suas realidades minando as pilastras que sustentavam o racismo, viabilizando um contexto de experiências muito mais favorável pra gente. Eles merecem ser honrados! Para tanto é necessário sermos persistentes e acima de tudo, pacientes. Voltando-nos pra dentro para desabrochar lindos jardins. Vamo’ Juntos? Pois, como disse o grande Mandela:

“Nunca, nunca, nunca mais deixaremos esta bela terra voltar a experimentar a opressão de uns e outros. Vamos deixar a liberdade reinar”. (Discurso da posse como presidente, 10 de maio de 1994).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS USADAS NESTA SEÇÃO:

DOVIDIO, J. F., & GAERTNER, S. L. (1998). On the nature of contemporary prejudice: the causes, consequences, and challenges of aversive racism. In J. L. Eberhardt & S. T. Fiske (Orgs.), Confronting racism: the problem and the response (pp. 3-32). Thousand Oaks, Califórnia: Sage.

GAERTNER, S. L., & DOVIDIO, J. F. (1986). The aversive form of racism. In J. F. Dovidio, & S. L. Gaertner (Orgs.), Prejudice, discrimination, and racism (pp. 61-89). Orlando, Florida: Academic.

GUIMARÃES, A. S. A. (1999). Racismo e anti-racismo no Brasil. São Paulo: Editora 34.

LIMA, M. E. O.; VALA, J. As novas formas de expressão do preconceito e do racismo. Estudos de Psicologia, Aracaju, p. 401-411, 2004.

PETTIGREW, T. F., & MEERTENS, R. W. (1995). Subtle and blatant prejudice in Western Europe. European Journal of Social Psychology, 25, 57-75.

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