Manual do Racista: como lidar com um (parte 2)

A presente seção compreende que exista uma parcela da população disposta a lutar contra o racismo, que no embalo unilateral de suas emoções, adoece ou sofre em demasia pela militância. Queremos falar com você! Acreditamos (e sim, apesar de ocupar um único corpo, o autor deste texto entende que não o escreve energeticamente sozinho ‘rs) que dá sim pra militar sem condicionar todas as nossas “penas” pela causa. Para tanto é importante frisar que as linhas seguintes representam um construto empírico-analítico dos fatos vivenciados por este autor.

A realidade atual constata que apelar unicamente para a moral do racista é a mesma coisa que afagar jacarés! A ação viabilizará muito provavelmente uma “mordida” como resposta. Mas calma! Muito cuidado com as associações automáticas. Em nenhuma hipótese a analogia recente pretende depreciar ou inferiorizar a capacidade cognitiva do racista. Mas sim, relacionar que podemos lidar com um agente potencialmente nocivo – ainda que inconsciente disto – e que nós negros por representar a este certa ameaça, sofreremos retaliações. Isso mesmo, uma ameaça! Não se trata daquela que o racismo costuma condicionar, mas referimo-nos a ameaça aos privilégios. É indiscutível a facilidade de acesso ao sistema que, via de regra, o indivíduo de pele branca possui se comparado ao seu semelhante de pele escura. E isso inclui múltiplas esferas de âmbito pessoal/afetivo, profissional, conjuntural. Sua circulação é decididamente menos contestada. Os negros, neste caso, são percebidos como violadores dos valores que mantêm o status quo das relações inter-raciais (Lima & J.Vala, 2004).

E qual teoria poderia suscitar brevemente uma explicação ao que vivemos hoje? Bem…  é possível afirmar a priori que os valores culturais são absorvidos ao longo do tempo e a sua repetição automatiza comportamentos que, em tese, podem aperfeiçoar as relações sociais. A cultura, por sua vez, constitui o mundo dos fenômenos:

“É a “lente” pela qual o indivíduo enxerga os fenômenos; assim sendo, determina como os fenômenos serão apreendidos e assimilados. Determina as coordenadas da ação social especificando os comportamentos e objetos que derivam de uma e de outra”. – Grant McCracken (McCracken, 2007).

O autor e psicólogo Robert Cialdini afirma que a partir da cultura e dos seus mecanismos de reprodução, tais como os instrumentos midiáticos e disseminadores de praticas artísticas, somos envolvidos por gatilhos ou atalhos mentais que facilitam a tomada de decisões em uma atmosfera cada vez mais instantânea:

“Cada princípio é analisado em sua capacidade de produzir nas pessoas um tipo singular de consentimento automático e impensado, ou seja, uma disposição em dizer “sim” sem pensar primeiro. Indícios sugerem que o ritmo acelerado e o bombardeio de informações da vida moderna tornarão essa forma específica de persuasão cada vez mais predominante. Será ainda mais importante para a sociedade, portanto, entender como e por que a influência automática ocorre.” – Robert Cialdini

O problema se dá na ausência indistinta de percepção quando por decorrência automatizamos até julgamentos de cunho valorativo. Recepcionando as narrativas que discriminam determinado agente taxado como diferente por sua conduta, cor, cultura, etc. escalando-o para um patamar inferior ao daquele em que o disseminador do discurso racista avalia estar. E essa mecânica acaba reproduzida aos montes por inúmeros vetores. Deste modo, o espectro vigente aponta categoricamente o lugar nativo de cada corpo social e o racista, seja ele consciente ou não, visa no cerne da sua narrativa a manutenção deste contexto. Temos aqui o produto do racismo do colonizador europeu.

Trata-se, portanto, de um conjunto dicotômico de racistas instintivos e clarividentes, automatizados ou despertos. Por esta razão que simplesmente “atacá-los” configura-se para o indivíduo que decida reagir contra o racismo um desperdício de tempo.

Acusar indiscriminadamente o racista de ignorante, acéfalo ou termos congêneres, diminui-lo ou tão somente vomitar índices e estatísticas, seja no campo virtual ou pessoalmente, não surte o efeito pretendido na maioria dos casos. Ainda que nos sintamos emocionalmente recompensados por isso, não vale a “pena”! Aqui se atinge o ego do racista. E ao simplesmente atacar… a reação – na prática – compreenderá uma série de ofensas acaloradas e parcialmente formadas com o intuito claro de defesa. São conjunturais os indivíduos que aceitam contestações, principalmente de desconhecidos. Nesse contexto é necessário separar inicialmente dois universos: o emocional e o racional. O diálogo por mais primoroso que seja – se sozinho infelizmente e num estopim – não modifica o construto.

Você pode ter a sensação de estarmos objetivando justificar o racista. E para essa divagação temos um categórico não! A proposta aqui é considerar o contexto e as questões pessoais de cada indivíduo.

Manifestamos que o maior objetivo desse conjunto de textos é a garantia básica de sua saúde mental e por isso acrescentamos especialmente a você que é negro, a importância de não estereotipar o discurso: Preto não fala só de racismo, apesar de exigirem isso a todo instante. Ou seja, depreender um tempo para respirar outros universos respeitando inclusive o irmão de cor que opte em não seguir com você ou pense diferente em variados pontos, surge como fator importantíssimo. Considere que cada indivíduo é uma galáxia singular a outra, mesmo que suas causas se interseccionem por razões determinadas. Mas entendemos que este assunto ramifica outra questão oportunamente tratada em um texto futuro: como lidar com a militância. Aguardem!

Como lidar com um racista

Conforme supracitado é fundamental que o militante realize a manutenção de sua saúde, principalmente mental. Parece óbvio e é! Mas muitos ainda compartilham o sistema programado para dificultar o acesso de negros sem se dar conta do teor altamente nocivo da composição. Logo, é importantíssimo que nós nos cuidemos acima de tudo, munindo-se de um repertório diversificado. É necessário estar bem para poder se engajar na militância. Seja biologicamente, nutrindo-nos de forma adequada; individualmente, instruindo-nos sobre as histórias de nossos ancestrais e conferindo atenção especial ao nosso psicológico não se atendo singularmente a causa; profissionalmente, perseguindo contextos que nos realizem enquanto pessoa; afetivamente, nos cercando de instrumentos que nos façam genuinamente bem. Isto é, voltar para si preliminarmente como ponto inicial de militância sobre qualquer máxima defendida.

A contar deste autocuidado, as chances efetivas de ocupação se expandem. É nessa contextura que as refutações se limitam gradativamente. Nisto, acreditamos que a principal argumentação do individuo de pele negra contra o discurso racista generalizado seja a legítima apropriação de espaços. Trata-se de uma argumentação não verbal, mas sim essencialmente posicionada. Quanto mais negros em lugar de destaque, melhor combatido será o racismo. Para tanto não se pode prescindir a instrução. Sendo necessário para, além disso, darmos visibilidade aos nossos irmãos, incitando-os, consumindo e compartilhando o que for de preto. Investindo em organizações preocupadas com a diversidade, visto que movimentamos trilhões de reais e ainda somos maioria da população. A sociedade precisa entender que o cerco para a intolerância se fecha a passos largos. Ainda que o sistema dominante tente resistir de inúmeras formas, aliás, como tem sido feito hodiernamente. Por essa razão seguimos o texto na tentativa de esmiuçar os eventuais instrumentos determinantes do racismo emergentes em sua jornada.

Até aqui nos esforçamos para discorrer sobre mecanismos mais eficazes de combate ao racismo velado; predominante em nossa sociedade brasileira. Nesse contexto, partimos da premissa elementar de seguir na militância condicionando prévias e constantes manutenções na saúde, principalmente mental, da comunidade empenhada. Preocupando-se em diversificar o seu discurso e com o posicionamento social dos espaços que deve ser o nosso principal trunfo dialético contra o racismo. Além disso, consideramos a necessidade de trabalhar a unidade de cada movimento validando o que for produzido por seus componentes. Aqui acrescentamos também a possibilidade de qualquer corpo social poder ser inserido na dinâmica discursiva da causa, considerando previamente o nosso campo e propriedade de fala. Logo, isto significa não inviabilizar o branco do discurso. É necessário estarmos abertos sempre, pois quanto mais gente lutando em desfavor ao racismo, melhor. Perceba que o intuído deve ser o combate às ideias e não ao opressor. De modo que há casos onde a didática é aplicada. Noutros, a denúncia! É valoroso compreender que as ideias persistem ao logo dos tempos. Atuar na desconstrução delas pode ser mais exitoso do que apenas agir frente ao seu vetor. Por essa razão é importante o processo de empatia na tentativa de condução. Ainda que seja difícil manter-se empático com um vetor que utiliza o discurso para disseminar o ódio contra nós.

Feito isso, as linhas seguintes irão se debruçar em um ensaio percepcionado e direcionado a categorizar as manifestações gerais de racismo do nosso cotidiano com o intuído de propiciar interações menos danosas com esses vetores. E neste tempo presente, saboreamos o adendo da lente denominada de cibercultura , ou seja, o mundo super conectado que inaugurou uma atmosfera aparentemente ainda mais camuflada do que a já disponível na materialidade, devido à suposta sensação de impunidade. Visibilizando o racismo virtual. Mas não se engane! O racista das redes é o mesmo do espectro material, a “novidade” aqui se restringe ao veículo. Entretanto, esse espaço relativamente permissivo e a sua quase inexistência de censura direta possibilitou também que negros exercitassem o seu lugar inviolável de fala. Essa construção foi fundamental para que uma grande parcela de personas negras carentes de representação se espelhasse em seus semelhantes e decidisse assim como eles, “gritar”. Gerou um efeito cascata. A internet ampliou ambos os discursos!

Para efeito, no que tange a motivação do discurso, bem como o seu respectivo comportamento, o presente texto investigará o racista e suas particularidades narrativas sem prescindir o seu contexto histórico. Assim sendo, o conjunto de análises empíricas permitiu considerar em linhas gerais três grandes grupos: o racista conjuntural insciente, o racista estrutural velado que se ramifica ao aversivo e por fim o racista estrutural convicto. O texto seguinte se esforça para descrever didaticamente como lidar com estes vetores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS USADAS NESTA SEÇÃO:

LIMA, M. E. O.; VALA, J. As novas formas de expressão do preconceito e do racismo. Estudos de Psicologia, Aracaju, p. 401-411, 2004.

MCCRACKEN, G. CULTURA E CONSUMO: Uma explicação teórica da estrutura e do movimento do significado cultural dos bens de consumo. RAE-Clássicos, v. 47, n. 1, JAN/MAR 2007.

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