Manual do Racista: como lidar com um (parte 1)

Qual seria a melhor munição para ser utilizada em combate a um agente oculto, velado, declaradamente inexistente? Como se preparar para um confronto em que um de seus componentes interaja de olhos vendados? Como certeza, pode-se inferir que uma mesma abordagem não flui de forma exitosa se aplicada em contextos distintos. A nova configuração, neste caso, exige um mecanismo que permita analisar atenciosamente o contraditório, suas motivações, movimentações e o seu entorno. Para aí sim, avançar! Gastando menos energia, otimizando e agilizando o processo. É fundamentada nesta premissa que a presente seção ambiciona ensaiar algumas respostas às indagações provocadas acima.

Pra começo de conversa… É importantíssimo reconhecer os ganhos que a comunidade negra vem consolidando no Brasil. A linha do tempo está repleta de vozes que reagiram e seguem reagindo contra uma ditadura fundamentada na exploração escalonada e dedicada em perpetuar o crescimento econômico a base de sangue negro. Gritos ecoados – muitos a “duras penas” – com o intuído de conferir um espaço vivo e digno ao conjunto de corpos mais violentado de nossa terra. Em contrapartida a essa nova dinâmica, o racismo no Brasil foi se sofisticando com o passar dos anos ao sair dos holofotes. A abolição serviu basicamente para ilegalizar a escravidão nos moldes em que se praticava. No entanto, se antigamente a figura do negro subalterno era naturalizada pelo discurso hegemônico, nos dias atuais a narrativa tenta resistir camuflando-se no íntimo da conveniente moralidade de uma determinada parcela da população.

Em uma pesquisa inédita, o IBOPE (2017) mapeou as práticas discriminatórias dos brasileiros sobre preconceito realizada em todo o país entre os dias 16 e 21 de setembro de 2017. O estudo concluiu que só dois em cada dez brasileiros admitem ser preconceituosos. Porém, quando lhes são apresentadas um conjunto com frases racistas, sete entre os dez admitem já ter feito alguma declaração discriminatória pelo menos uma vez na vida. “O brasileiro não tem consciência de que as coisas que diz demonstram preconceito”, disse Márcia Cavallari, diretora-executiva do Ibope Inteligência em entrevista ao Estadão.

Ou seja, o brasileiro possui usualmente dificuldade de assumir-se racista. Logo, pode-se afirmar que este indivíduo detém certa noção do teor negativo que a prática em si representa socialmente. Contudo, o mesmo reproduz com naturalidade os gatilhos comportamentais regentes das relações raciais que inferiorizam o negro e, aparentemente, de modo inconsciente. Não se trata de uma adaptação meramente quantitativa (redução na intensidade da expressão), mas de uma transformação qualitativa das formas de expressão do preconceito (Camino, Silva, Machado e Pereira (2001). Estamos diante de discriminações estruturais, e nisto, ainda que o indivíduo não se declare racista, manifestações frequentes podem ser observadas (Estadão).

É nesse campo ocasionalmente silencioso que o negro brasileiro precisa enfrentar o racismo diariamente. Mas qual seria a melhor forma de lidar com essa realidade diminuindo o nocivo efeito reboot deste enfrentamento?

Pois então… trataremos de ensaiar uma resposta para essa e outras questões no post seguinte.

3 comentários Adicione o seu

  1. Seu blog é necessário.

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    1. Dáfrica disse:

      Gratidão moço. Ele é importante pra mim. Na verdade… os nossos são necessários! Tmj

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