O que você sabe sobre o afrofuturismo?

Apenas durante a década de 90 o termo é cunhando e difundido, necessariamente, por um cara branco. O escritor Mark Dery publica um ensaio batizado de Black To The Future: ficção científica e cybercultura do século XX a serviço de uma apropriação imaginária da experiência e da identidade negra. Corrente que, ora rotulada e caracterizada como um movimento cultural, já ilustrava a anos trabalhos vigorosos e numerosos de expoentes do período como Octavia Butler e Samuel Delany, por exemplo.

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Senta que lá vem história! Mas prometo brevidade. (risos)

Após segunda guerra mundial por volta da década de 50, a ascensão econômica dos EUA indicava o êxito estabelecido pelo seu voraz sistema capitalista, associado majoritariamente à temática objetiva do processo de esforço constante = lucro/ganho equivalente. Enquanto a doravante primeira potência econômica mundial principiava um confronto sem armas conhecido como Guerra Fria contra a até então União Soviética, com o objetivo de consolidar-se economicamente e assim expandir globalmente o seu campo de atuação, a população mais desassistida (e nos jovens em específico) dos EUA começara a se organizar contra a nítida distribuição concentrada de renda que o sistema vigente oferecia. Nisto, a tensão racial era inflada com – as cada vez mais constantes – manifestações de insatisfação com o modelo segregacionista difundido pelo sistema. É nesse contexto que Rosa Parks (1913-2005) revoluciona e proporciona fôlego combustivo ao debate racial quando em 1º de dezembro de 1955, se recusa frontalmente a ceder o seu lugar no ônibus a um branco (a época existia uma lei que determinavam os locais onde negros e brancos deveriam se sentar em coletivos), tornando-se o estopim do movimento que foi denominado boicote aos ônibus de Montgomery e posteriormente viria a marcar o início da luta antissegregacionista.

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O contraste social tornara-se progressivamente mais evidente. E em oposição ao discurso de consumo praticamente indiscriminado propagado na época e que reverbera ate os dias atuais (diga-se de passagem), que surge o movimento Hippie, claramente influenciado por outro que o antecede, chamado Beatnik. O ponto de partida dessas correntes em sua essência determinava a subversão aos padrões que eram inseridos ‘goela a baixo’ da grande massa proletarizada. Advêm de um completo descontentamento social e político propondo ideais disruptivos ao modelo de vida padronizado, bem como suas construções artísticas balizadas às normas hegemônicas. É neste extrato de contestações que surgem os primeiros percussores do afrofuturismo. Mentes que enxergaram na ancestralidade africana um meio vívido de protestar o completo desnível social e especialmente racial dos construtos que se estabeleciam no período. Um dos pioneiros do movimento afrofuturista a época foi o compositor de jazz e poeta, Sun Ra.

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As décadas finais do século passado concentraram transformações céleres se considerarmos necessariamente o impacto mais imediato no contexto social do indivíduo de pele negra. O ambiente ainda predominantemente exotizado em que o negro era retratado pela discursiva comum é então confrontado em obras crescentes e intimamente preocupadas no resgate histórico da importância cultural africana. O continente berço!

Assim, o afrofuturismo configura-se com mais popularidade como um complexo pré-requisito para a manutenção das vidas de indivíduos negros e de suas variações. Em linhas gerais, resulta do processo constante de pensar num futuro onde pessoas negras tenham o direito de existir com garantias universais de acesso e de vida. Para tanto, o movimento exige um resgate da ancestralidade mística, mitológica, cosmológica… da costura cultural como um todo dos povos africanos em conexão dialética com a tecnologia, a ciência, o inovador e o inexplorado. É olhar o universo sob a ótica singular contextual do indivíduo de pele negra. É subverter os padrões atuais.

“uma maneira de olhar o futuro ou alternar a realidade através de uma lente cultural negra”. Ytasha Womack

O autor e crítico cultural Ytasha Womack, que escreveu um livro sobre Afrofuturismo, define-o, em parte, como “uma maneira de olhar o futuro ou alternar a realidade através de uma lente cultural negra”. O produto disto insere este sujeito em posição de protagonismo e equidistância nas múltiplas vertentes artísticas, tais como música, artes plásticas, moda, literatura… E tudo mais que possa virar arte e repercutir por consequência no cenário social contemporâneo.
Nomes como Outkast, Janelle Monáe, Nina Simone, Ellen Oléria, Xênia França, Tássia Reis… na música… Basquiat e Spike Lee nas artes visuais… Fábio Kabral na literatura… Dentre tantos outros citados neste texto (ver mais nomes aqui), preenchem uma gigantesca lacuna de produtos que dialoguem com a massa esmagadora de afrodescendentes diaspóricos existentes neste país. Suas obram perseguem um reencontro ancestral e contribuem gradativamente para o movimento que ousaram datar de afrofuturismo.

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É importante sinalizar que neste ensaio não se cogita fornecer respostas fechadas para o termo. Mas sim, trazer mais questões a serem discutidas em roda. O afrofuturismo se fundamenta em mim, em você que possui no sangue a ancestralidade africana. Ele propõe contar nossa história tornando-a cada vez mais difundida e enraizada, contemplada sem acoites! Visa esmiuçar uma obviedade que ainda aparenta confundir muita gente… A de que vidas negras importam! Uma obviedade que denuncia mortes ainda subsequentes de uma atrocidade histórica que repercute de modo verbalmente velado, mas estatisticamente escancarado nos dias atuais. Afrofuturismo não se trata de um movimento com idas e/ou voltas, se refere a um discurso que resiste no tempo e que pula de voz em voz pela história com o intuito de reivindicar a manutenção das vidas do individuo de pele preta. E que bom termos agora com a internet milhares de vozes ecoando ancestralidade africana.

O que tecemos sobre o afrofuturismo não se esgota aqui, pelo contrário, esta singela introdução é apenas o nosso ponto de partida para o deleite em um universo pluridisciplinar onde você – individuo de pele negra ou não – é fundamental.
Representatividade importa sim! É vital! E nos multiplicamos por através de referencias.
Você vai se compadecer a cada novo caso de racismo ou prefere praticar o afrofuturismo agora mesmo?

“O sonho é mito coletivo. O mito, um sonho pessoal”. Fábio Kabral

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REFERÊNCIAS USADAS NESTA BREVE INTRODUÇÃO

KABRAL, Fábio. — “[Afrofuturismo] O futuro é negro — o passado e o presente também”. 2016.

GÉLEDES. — “Dossiê Afrofuturismo: saiba mais sobre o movimento cultural. 2015.

LARA, Luis Carlos. PORTAL 44. — “O espaço é o lugar: a arquitetura do afrofuturismo”. 2018.

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